Entre nomes canónicos já desaparecidos e novas e auspiciosas vozes, a poesia portuguesa é-nos apresentada com um arrojo alheio a espartilhos académicos ou de notoriedade. Os Cem Melhores Poemas Portugueses dos Últimos Cem Anos constitui uma leitura incontida e luminosa do panorama poético português, marcada sobretudo pelo entusiasmo de dar a conhecer o que de melhor fizeram, ao longo de cem anos, cem dos nossos poetas. Esta é, assim, uma viagem íntima por esse universo paralelo que, nas palavras de Sophia de Mello Breyner, é «uma luta contra a treva e a imperfeição»: a poesia.
Hoje partilhamos consigo dois dos poemas que poderá encontrar neste livro.
Camilo Pessanha
Imagens que passais pela retina
Dos meus olhos, porque não vos fixais?
Que passais como a água cristalina
Por uma fonte para nunca mais!...
Ou para o lago escuro onde termina
Vosso curso, silente de juncais,
E o vago medo angustioso domina,
— Porque ides sem mim, não me levais?
Sem vós o que são os meus olhos abertos?
— O espelho inútil, meus olhos pagãos!
Aridez de sucessivos desertos…
Fica sequer, sombras das minhas mãos,
Flexão casual de meus dedos incertos,
— Estranha sombra em movimentos vãos.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Um Poeta Clássico
Um poeta clássico
Fará da ausência uma parte do seu jogo:
Prumo esteio coluna
Combate esculpido nas métopas do templo
Una e múltipla
Cada encontro a recomeça:
Ahudo gume quando a música ressoa
Venenosa rosa do Junho mais antigo
Um poeta clássico
Fará da ausência uma parte do seu jogo
Nem integrada nem assumida
Apenas companheira
Segunda mão poisada sobre a mesa
Mão esquerda
Companheira serena
Das coisas serenas:
Parede livro fruto
E fogosa condutora dos desastres
Que nos esperam em seus pátios lisos