"A mão no arado", de Ruy Belo

Por: Bertrand Livreiros a 2021-01-26 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Ruy Belo

Ruy Belo

Ruy Belo nasceu em Rio Maior a 27 de fevereiro de 1933. Licenciou-se em Filologia Românica e Direito pela Universidade de Lisboa, mais tarde doutorando-se em Direito Canónico pela Universidade de S. Tomás de Aquino, em Roma. Lecionou no ensino secundário e foi leitor de português na Universidade de Madrid. Abarcando a crítica irónica da realidade social e a denúncia das diversas problemáticas que equacionam o ser humano, desde a sua vivência espiritual e religiosa até ao envolvimento concreto e existencial, a sua poesia é um dos maiores marcos na literatura portuguesa. Destacam-se os livros Aquele Grande Rio Eufrates (1961), País Possível (1973) ou Toda a Terra (1976). Morreu precocemente, vítima de um edema pulmonar, a 8 de agosto de 1978.

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Confessamos: não conseguimos viver sem poesia. Nos dias que correm, ela torna-se ainda mais vital, para alimentar o sonho, esticar as pernas da esperança e limpar, dos olhos, os filtros turvos do medo. Por essa razão, temos vindo a pedir que partilhem connosco os vossos poemas preferidos. Para enfrentarmos a pandemia com poesia.

A sugestão que partilhamos aqui hoje chegou-nos através da Ana Pestana. Fiquem com A mão no arado, de Ruy Belo, poema que integra o livro Todos os poemas.


A mão no arado, de Ruy Belo

Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará

Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh! como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua

É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro
É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solidário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã

Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tudo isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente

Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente.

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