Mãe, a tua voz acalma a respiração do mundo
Conta-me outra vez a história do nascimento dos verbos
A das estrelas bailarinas que vivem na minha lancheira
A dos invencíveis descobridores, das epopeias e das sereias que usam meias
A das flores que se apaixonam pelo jardineiro e que dançam sempre que o regador chove lágrimas
Conta-me aquela em que a princesa não precisa de ser salva
e os dragões dormem até tarde
Conta-me outra vez.
A dos super-heróis que bebem leite com chocolate ao deitar
E onde os monstros são sombras inventadas pelo medo
que não chegou a ir à escola
Conta-me outra vez
A do arco-íris que casou com o vento
Fala-me das crianças que têm raízes nos pés e flores a nascer no cabelo
Explica-me a melodia dos pássaros que dançam na minha janela
Repete a história da tristeza que se afogou na chuva
E da manhã que cheira a sonhos e pão fresco
No lugar onde o tempo nasce na fonte e sobra para todos
Fala-me da menina que tinha coragem nos olhos
Do rapaz que desafiou as ondas
Do país que inventou o amor sem prazo de validade
Fala-me dos números que vestem calças, dos animais que são estrelas de rock
Explica-me outra vez, devagarinho, os futuros que trago nos olhos e
Garante-me que as gargalhadas nunca envelhecem
Conta-me aquela que eu gosto
em que a injustiça acaba antes da última página
e vão todos para casa mais cedo ver televisão
Faz aquelas vozes engraçadas
Demora-te entre páginas, estica o fim
e deixa-me acreditar que esta história não tem sono
Mãe, a tua voz acalma a respiração do mundo
Conta-me outra vez.