Uma mãe branca, com o seu filho negro, atravessa o rio Atrato, na Colômbia, para o levar a conhecer a sua mãe negra biológica. É esta a premissa de Esta Ferida Cheia de Peixes (Guerra e Paz), o primeiro romance da colombiana Lorena Salazar Masso, escrito para a sua tese de mestrado e tão elogiado pelos seus professores que a incentivaram a publicá-lo. Nele, o rio assume-se como uma verdadeira personagem, funcionando como recordação constante de que “nunca podemos escapar à nossa nascente” (O Livro dos Símbolos, Taschen).
“O rio Atrato é uma mulher negra que alimenta os filhos, os rios estreitos que lhe nascem e que vão alimentar pequenas aldeias.” — Lorena Salazar Masso
A travessia do rio, que ocupa a maior parte da história, é, ao mesmo tempo, uma viagem física e interior, na qual vão desaguar todos os receios da mãe branca, por sentir que é uma mulher duplamente incompleta: em primeiro lugar, por não ter dado à luz o menino que lhe chama de “ma”; e, em segundo, por não ter em comum a cor de pele que este partilha com as mulheres fortes do Chocó – região predominantemente afro-colombiana onde cresceu a autora. Através das inseguranças desta personagem, Lorena espelha a pressão emocional suportada por todas as mulheres para serem mães e mulheres perfeitas, o que a leva a confessar, apesar da sua juventude (nasceu em 1992) e de não ter filhos: “Ser mãe é uma coisa que dói. É ferida e cicatriz.”.
“O Atrato une mercados e separa pessoas. O rio lava a roupa, dá de comer, sustenta crianças, dá banho às mulheres, esconde mortos. Cura os lamentos dos anciães. O rio não discrimina: abençoa e afoga.” — Lorena Salazar Masso
O romance bebe inspiração na tradição oral da América Latina: as canções, os poemas, as loas, os chigualos e os boleros. À música Lorena foi buscar a forma harmoniosa como compõe as suas palavras, criando imagens de uma beleza que fica com o leitor muito depois de este fechar o livro - e que leva a autora Marta Sanz, vencedora do Prémio Herralde de Novela 2015, a afirmar: “Lorena escreveu música e verdade”. Do rio, que é personagem, “mulher negra”, “ruga sobre a qual choveu muito” e “ferida cheia de peixes”, pode dizer-se que é também símbolo do berço da Humanidade, onde floresceram as primeiras grandes civilizações. No fundo, o rio é para a Humanidade o que a “ma” branca da narrativa é para o menino: não o leito do seu nascimento, mas o local onde este encontrou os nutrientes e o amor, necessários para crescer e prosperar. Nesta viagem repleta de carga simbólica, de lições de apego e desapego, de dor e beleza em partes iguais, chegamos, por fim, ao destino com a interiorização de uma verdade que a Natureza e o curso da vida se encarregam de ensinar a todas as mães, biológicas ou do coração: “Os filhos são mais do rio do que das mães.”