A poeta Ana Luísa Amaral foi reconhecida com o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana, galardão que destaca uma obra poética que represente um contributo significativo para o património cultural dos países de línguas portuguesa e espanhola. O anúncio foi feito segunda-feira, dia 31 de maio, pelo Património Nacional Espanhol (PNE) em parceria com a Universidade de Salamanca.
A memória do feminismo de Ana Luísa Amaral
Na capa do jornal El País desta terça-feira, dia 1 de junho, é possível ler-se: “A memória do feminismo de Ana Luísa Amaral ganha o Prémio Rainha Sofia.” Destacando o facto de a autora ser pioneira nos estudos de género em Portugal, tendo, inclusive, publicado Dicionário da Crítica Feminista com Ana Gabriel Macedo, o jornal espanhol não deixa de reforçar que Ana Luísa Amaral separa a poesia do feminismo por considerar que “a poesia está além dos rótulos. A poesia é sempre ética”.
A presidente do PNE, Llanos Castellanos, elogiou a obra da autora pela sua “mensagem de abertura, respeito, tolerância e reivindicação”, não esquecendo “o compromisso com os direitos e liberdades e, sobretudo, para que a voz das mulheres seja ouvida.” Por seu lado, Ricardo Rivero, reitor da Universidade de Salamanca, reitera as qualidades de Ana Luísa Amaral, dizendo que “representa e personifica alguns dos melhores valores ibéricos e ibero-americanos: a defesa da liberdade, a dignidade da pessoa, a equidade de género.”
Em entrevista à agência Lusa, a autora de Ágora ou Escuro afirmou que receber o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana é "uma felicidade sem nome", um reconhecimento de um trabalho que é "prazer, angústia e necessidade". Ana Luísa Amaral estava a passear a sua cadela, Emily Dickinson, quando lhe telefonaram a dar a notícia. "O facto de me terem dado este prémio significa que aqueles livros que eu escrevi, de alguma forma, tocaram as pessoas. Eu acho que isso é uma felicidade sem nome", garantiu.
Ana Luísa Amaral torna-se, assim, a terceira autora portuguesa a receber o prémio, no valor de 41 100 euros, depois de Sophia de Mello Breyner (2003) e Nuno Júdice (2013).
O prémio conta ainda com a edição de uma antologia poética da autora, com organização e notas a cargo de um destacado docente de Literatura da Universidade de Salamanca, publicação à qual se seguirão umas jornadas académicas sobre o trabalho de Ana Luísa Amaral.
Ana Luísa Amaral / Onomatopeia
What's in a Name
Sentada a esta mesa, a varanda à direita,
como de costume,
penso na minha filha e no nome que lhe demos,
eu e o seu pai, quando ela nasceu
Um nome é coisa de fala e de palavra,
tão espesso como aquelas folhas que, se pudessem olhar,
me haviam de contemplar daquele vaso,
perguntando-me por que se chamam assim
Porém, não fui eu quem escolheu o nome da flor
a que pertencem essas folhas:
o nome já lá estava, alguém pensou nele
muito antes de mim, e foi decerto a partir do latim,
só depois: o costume
Mas não há nada de natural num nome:
como uma roupa, um hábito, normalmente para a vida inteira,
ele nada mais faz do que cobrir
a nudez em que nascemos
Com a minha filha,
o mais belo de tudo, a maior deflagração
de amor – foi olhar os seus olhos,
sentir-lhe o toque em estame
dos dedos muito finos
esses: sem nome ainda,
mas de uma incontrolável
perfeição inteira
Nascida em 1956 e autora de mais de duas dezenas de livros de poesia e livros infantis, Ana Luísa Amaral já recebeu vários prémios, entre os quais se destacam o Prémio Literário Correntes d'Escritas, o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores e, mais recentemente, Prémio Literário Vergílio Ferreira 2021, atribuído pela Universidade de Évora, que anualmente destaca o conjunto da obra literária de um autor de língua portuguesa relevante no âmbito da narrativa e/ou ensaio.
What’s in a Name, publicado em 2017 pela Assírio & Alvim, é uma das obras mais elogiadas da escritora, tendo chegado a ser galardoado com o prémio Livro do Ano, na área de Poesia, pela associação das Livrarias em Madrid.
Numa publicação de outubro de 2020, no El País, o professor António Sáez Delgado considerou Ana Luísa Amaral "uma das mais importantes vozes das letras portuguesas das últimas três décadas". O artigo, centrado em What’s in a Name, reforça como Amaral construiu "uma obra que se desdobra paralelamente na poesia (sede central do seu universo literário), por meio do teatro, do ensaio, da narrativa para adultos ou infantil, e da tradução".
Ágora é o seu mais recente livro de poesia, publicado em fevereiro de 2020. Uma obra que mistura arte e poesia, uma coletânea de poemas belos e terríveis, comoventes e violentos, em permanente diálogo com a Bíblia e com a arte, mas sobretudo com o nosso tempo.