3 poemas para recordar António Ramos Rosa

Por: Marta Ribeiro a 2023-10-17 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Um ano antes do centenário de António Ramos Rosa, lembramos três poemas do poeta e crítico português. Trabalhou como tradutor e professor, foi militante do Movimento de União Democrática e chegou a ser preso pela polícia política. Fez exposições, colaborou com jornais e revistas e publicou mais de 50 livros de poesia. Em 1988, foi reconhecido com o Prémio Pessoa. A biblioteca municipal de Faro – de onde é natural – adotou o seu nome. Faleceu em 2013 e deixou para trás um longo legado no mundo artístico nacional. 
 



[Mas agora estou no intervalo em que]

Mas agora estou no intervalo em que
toda a sombra é fria e todo o sangue é pobre.
Escrevo para não viver sem espaço,
para que o corpo não morra na sombra fria.
Sou a pobreza ilimitada de uma página.
Sou um campo abandonado. A margem
sem respiração.

Mas o corpo jamais cessa, o corpo sabe
a ciência certa da navegação no espaço,
o corpo abre-se ao dia, circula no próprio dia,
o corpo pode vencer a fria sombra do dia.
Todas as palavras se iluminam
ao lume certo do corpo que se despe,
todas as palavras ficam nuas
na tua sombra ardente.

A Construção do Corpo, 1969

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[Para um amigo tenho sempre um relógio]

Para um amigo tenho sempre um relógio 
esquecido em qualquer fundo de algibeira. 
Mas esse relógio não marca o tempo inútil. 
São restos de tabaco e de ternura rápida. 
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo. 
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol. 

Viagem Através de uma Nebulosa, 1960

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[Vive-se quando se vive a substância intacta]

Vive-se quando se vive a substância intacta
em estar a ser sua ardente   harmonia
que se expande em clara atmosfera
leve e sem delírio ou talvez delirando
no vértice da frescura onde a imagem treme
um pouco na visão intensa e fluida
E tudo o que se vê é a ondeação
da transparência até aos confins do planeta
E há um momento em que o pensamento repousa
numa sílaba de ouro É a hora leve
do verão a sua correnteza
azul Há um paladar nas veias
e uma lisura de estar nas espáduas do dia
Que respiração tão alta da brisa fluvial!
Afluem energias de uma violência suave
Minúcias musicais sobre um fundo de brancura
A certeza de estar na fluidez animal

Poemas Inéditos

 

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