Foi num dia de outono como o de hoje (a 7 de outubro de 1955) que Allen Ginsberg, poeta americano da geração Beat, fez, na Six Gallery, em São Franciso, a primeira leitura do poema que é considerado a sua obra-prima, "Howl" (Uivo). Os temas que abordava - a droga, a homossexualidade - bem como a total desconsideração pelas regras gramaticais, chocaram o público, tendo o livro sido apreendido pelos serviços alfandegários dos Estados Unidos e pela polícia de São Francisco aquando da sua publicação.
65 anos depois, Ginsberg continua a ser admirado como o expoente máximo da poesia Beat, tendo marcado indelevelmente inúmeros poetas e leitores durante gerações. Recordamos a sua obra hoje, com um poema intitulado Canção - para ler em voz alta, a sós ou entre amigos, e jazz a tocar como música de fundo.
Canção, de Allen Ginsberg
O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação
o peso
o peso que carregamos
é o amor.
Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano -
sai para fora do coração
ardendo de pureza -
pois o fardo da vida
é o amor,
mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.
Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor -
quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
- não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contigo
quando negado:
o peso é demasiado
- deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.
Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro
da carne,
a pele treme
na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho -
sim, sim,
é isso que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar
ao corpo
em que nasci.