Vinte anos após a publicação do primeiro livro, Filipa Leal está de volta com uma nova coletânea de poemas que afirma ser “um exercício de maior reflexão”, “sobre a maturidade”, “sobre a vontade de não ter pressa” e “de dizer à própria vida: tem calma, não tragas mais surpresas, por favor, porque, às vezes, são más.” Adrenalina (Assírio & Alvim) é o título do novo livro da poetisa que em tempos escreveu “sou apenas o contrário de um analfabeto”, “só sei ler e escrever”,
Agora, com 45 anos, mergulha numa Autobiografia poética, onde reflete sobre as razões que levam um a tornar-se escritora. Deixe-se levar pelos seus versos nesta tarde de outono.
Autobiografia
O poeta é um animal longo
desde a infância
LUIZA NETO JORGE, O Seu a Seu Tempo
Não ter jeito para nada,
ser a filha do meio,
não ter andado na natação,
não ter andado no ballet,
não ter andado no karaté,
não ter andado no ténis,
não ter aprendido a tocar guitarra,
não ter aprendido a jogar golf,
não ter passado a têxteis,
não ter conseguido terminar o excerto
do tapete de arraiolos,
não ter voz de menina,
não ter tido vontade de brincar com bonecas,
não ter tido a alegria inconsciente das crianças,
não ter tido a sabedoria de dormir no escuro,
não ter a certeza de que nada do que contasse
tivesse acontecido exactamente assim,
não querer depender de ninguém
fez de mim escritora.