Entre o concreto e o imaginado, entre os contos de fadas e as histórias de terror, Retratos com erro, de Eucanaã Ferraz, desenha muitos mundos que, como espelhos distorcidos, se multiplicam e se deformam. Eucanaã descreve com lirismo o amor zeloso e o desejo tórrido, a beleza e a perfeição, mas também o horror, o medo e a loucura. O retrato, aparentemente, nunca está completo. Entre o dito e o não dito, Retratos com Erro traz à baila príncipes, rainhas, ladrões, poetas, assassinos, bêbados e mágicos, numa avalanche de confissões íntimas entrecortadas pelas mais factuais notícias de jornal. Neste turbilhão de personagens reais e inventadas, descrições ora directas ora mirabolantes, um verso sintetiza este livro com limpidez: “só o silêncio que reluz é ouro”. Escutemos o poema “A sua pessoa”.
Minha mulher tem cabelos inabaláveis
estão cada dia mais longos são cabelos
que não param de crescer na extensão
de um giro completo de minha mulher sobre si mesma.
Irradiam-se do alto seguem pelos ombros vão nos calcanhares
e os seios se iluminam quando ela anda em modos de salgueiro.
Minha mulher cresce parece que leva uma fonte com ela.
Lavo perfumo escovo seus cabelos faço isso pacientemente
como um servo e posta sob a cabeleira radiosa assim
já não se vê o antigo rosto de minha dona é preciso adivinhar
ou recordá-lo. Essa mulher de cabelos escuros e tremendos
desde que a vi pela primeira vez nos casamos
e não paramos de avançar contra os cabeleireiros
contra o fogo contra os livros contra as leis que nos casaram.
Beijei seus cabelos quando escrevi o verso no qual começa o mundo
e será desse modo
até que o sangue me arraste para fora de suas franjas.
Cabelos de mulher. Durmo entre eles. Acordo.
Minha mulher seus cabelos e eu moramos na mesma casa.
Eucanaã Ferraz, in Retratos com erro