Há 771 milhões de adultos no mundo que não sabem ler nem escrever – a maior parte são mulheres. Segundo a UNESCO, cerca de 53% de crianças com 10 anos em países com rendimento médio e baixo não têm essa capacidade. Apesar dos avanços significativos nos últimos anos, olhar para letras, traduzi-las em sons e compreendê-los, continua a não estar ao alcance de todos.
Celebra-se, dia 8 de setembro, o Dia Internacional da Literacia, promovido pela UNESCO desde 1996. O objetivo é relembrar a importância de ler e escrever, individualmente e para a sociedade.
Fora da escola também se aprende – historicamente, era em família, nas comunidades, que se passava conhecimento. Hoje também online ou no trabalho. Durante a pandemia, estes meios foram especialmente importantes. Mas entre aulas na televisão e online, a qualidade do ensino diminuiu: cerca de 31% dos estudantes não tinham acesso a estes meios, o fosso da desigualdade afundou.
Em Portugal, o Plano Nacional de Leitura tem como objetivo a “definição e implementação efetiva de políticas públicas que permitam à população em geral desenvolver mais competências e hábitos de leitura” porque “leitores competentes serão cidadãos mais críticos e autónomos, contribuindo para uma cultura de exigência cívica e democrática”. Os livros são sugeridos com base em vários critérios, a idade é um deles.
Aqui ficam sugestões de livros para cada faixa etária (mas pode lê-los quando quiser):
1. 0-2 anos: E se..., de Chris Haughton
Hum... Mangas! Os macaquinhos ADORAM mangas. Mas há tigres lá em baixo... A mãe disse-lhes "Façam o que fizerem, NÃO se aproximem da árvore das mangas". Mas é mesmo uma pena. São tão docinhas e sumarentas. E se... fossem só VER as mangas? Aqui há tigres? Não! Ali há tigres? Não! Não há cá tigres. Podemos ir.
2. 3-5 anos: O que fazem os sentimentos quando ninguém está a ver, de Tina Oziewicz; trad. Teresa Fernandes Swiatkiewicz; il. Aleksandra Zajac
Conhecemos muitos sentimentos, mas será que sabemos o que fazem quando ninguém os está a ver? Neste livro, os sentimentos e emoções são representados como criaturas estranhas, misteriosas. Umas são calmas, outras agitadas, há as amáveis e as maldispostas… são todas diferentes entre si, mas vivem no mesmo local.
Um livro polaco, traduzido para várias línguas, que convida à reflexão. Delicado, surpreendente, divertido e caloroso inspira-nos a parar para percebermos melhor o que sentimos, pois mais ninguém consegue espreitar para dentro de nós para saber.
Uma reflexão divertida, desconcertante e original sobre os sentimentos.
3. 6-8 anos: Obrigada, Avó Omu!, de Oge Mora
Um belo livro ilustrado, de uma autora multipremiada, que celebra a bondade, a generosidade, a gratidão e o espírito comunitário.
Toda a vizinhança quer provar o guisado da avó! Atraídos pelo delicioso cheirinho, os vizinhos vão bater à sua porta, um a um, e a avó partilha com cada um deles o seu jantar. Será que tanta generosidade deixará a avó de barriga vazia?
A autora multipremiada de Sábado dá vida a uma história comovente sobre o espírito de partilha e a vida em comunidade, criando colagens tão ricas quanto o guisado da avó e temperadas com uma pitada extra de amor.
4. 9-11 anos: O som das coisas leves quando caem, de Catarina Ferreira de Almeida; il. Sérgio Condeço
«A Menina e Jasmim viviam numa ilha. Vista de cima, do céu, a ilha era um ponto minúsculo no meio do oceano. Vista de baixo, do fundo do mar, era apenas o pequeno cume de uma grande montanha submersa.»
Assim começa este texto profundamente poético sobre as aventuras de uma menina e da sua cadela no imaginário de uma ilha.
Numa ilha que nunca está no mesmo sítio, e ninguém sabe ao certo onde fica, vivem uma Menina e a sua cadela, Jasmim. Na ilha, há bicicletas e vulcões, estendais da roupa e florestas, pessoas atarefadas a andarem pelas ruas e árvores muito quietas que chegam até aos céus. Também há coisas que não existem e outras que mais valia não existirem.
Quando decidem partir de barco pelo grande mar, a Menina e Jasmim têm de escolher o que é importante levar. Algumas coisas são leves, mas não cabem dentro do barco. Outras, nem se veem, mas pesam toneladas…
5. 12-14 anos: Mulheres Más, de Maria Hesse
Uma história de mulheres que encarnaram o mal, cheia de humor e inteligência, da autora de Frida Kahlo, Bowie, O prazer e Marilyn.
Desde o aparecimento dos primeiros mitos, o universal tem sido narrado pelos homens, essa visão masculina que definiu o mundo, que nos disse como deveríamos ser puras, dóceis, amorosas — e que alertou sobre o perigo das mulheres más, quer fossem górgonas vingativas, madrastas cruéis, Pandoras problemáticas ou Evas imprudentes a carregar a culpa do nosso destino.
Numa versão muito pessoal, María Hesse apresenta-nos outra visão sobre estas princesas passivas, bruxas perversas, mães maldosas, femmes fatales, loucas apaixonadas e personagens secundárias perfeitas.
De Madame Bovary a Sarah Connor, de Joana, a Louca, a Yoko Ono ou de Helena de Troia a Monica Lewinsky, a autora reivindica a necessidade de encontrar novos referentes, novas leituras da História e a inspiração para que cada mulher possa ser aquilo que quiser num mundo em constante mudança.
5. 15-18 anos: O homem que via no escuro, de Catarina Reis
Bruno Candé foi a primeira pessoa em Portugal cuja morte resultou numa condenação de crime motivado por ódio racial. O homicida, de 76 anos, matou por preconceito contra a cor de pele. A justiça sentenciou que, a 25 de julho de 2020, Candé, de 39 anos, ator, lisboeta, pai de três filhos, morreu por racismo: uma palavra em que ele não acreditava.
Este livro é um retrato de Bruno Candé, da sua vida e do seu legado para a família, para a cidade e para a Zona J (hoje Bairro do Condado), onde nasceu e cresceu e onde levou o teatro até outras crianças e jovens. Candé dizia que, tendo nascido ali, teria tudo para dar errado. Mas eu sou o Bruno Candé, repetia logo a seguir. Ele, um homem que via no escuro, para lá dos estigmas da pobreza e da discriminação racial.
6. Maiores de 18 anos: Poesia reunida, de João Luís Barreto Guimarães
A poesia de João Luís Barreto Guimarães oscila, sempre, entre a contemplação da História, a ironia sobre as coisas comuns e quotidianas, a transformação dos sentimentos em meditação sobre a passagem do tempo, a construção de um universo próprio com as suas personagens, obsessões e descobertas.
Há nos seus versos uma atenção meticulosa voltada para os objetos quotidianos e que, a cada livro, foi dando lugar a uma geografia e uma enumeração afetuosa de lugares, memórias e personagens. Fala da casa, das viagens, das leituras, das histórias do mundo, da afirmação da vida. Está marcada pela ironia mas também pela gravidade e pela melancolia, pelo pormenor e pelo retrato de conjunto, pela leitura da solidão mas também do amor, da amizade, das coisas de todos os dias.
Como se todos nós tivéssemos direito à poesia como ao pão de cada dia.