Liberdade e uma pequena flor

Por: Beatriz Sertório a 2021-04-24 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Sérgio Godinho

Sérgio Godinho

Sérgio Godinho nasceu no Porto e aí viveu até aos vinte anos, altura em que saiu de Portugal. Estudou Psicologia em Genève durante dois anos, antes de tomar a decisão «para a vida» de se dedicar às artes. Foi ator de teatro e começou a exercitar a escrita de canções nos finais dos anos 1960. É de 1971 o seu primeiro álbum, Os Sobreviventes, seguido de mais trinta até aos dias de hoje. Sérgio Godinho é um dos músicos portugueses mais influentes dos últimos quarenta e cinco anos. Sobre si próprio disse: «Não vivo se não criar, não crio se não viver. Essa balança incerta sempre foi a pedra de toque da minha vida.» O seu percurso espelha, precisamente, essa poderosa interação entre a vida e a arte. Voz polifónica, Sérgio Godinho levou frequentemente a sua escrita a outras paragens. Guiões de cinema (Kilas, o Mau da Fita), peças de teatro (Eu, Tu, Ele, Nós, Vós, Eles!), séries de televisão, histórias infantojuvenis (O Pequeno Livro dos Medos), poesia (O Sangue por Um Fio), crónicas (Caríssimas Quarenta Canções), entre vários exemplos. Estreou-se na ficção com Vidadupla, um conjunto de contos publicado em 2014, a que se seguiu o seu primeiro romance, Coração Mais Que Perfeito, e agora Estocolmo.

VER +
José Jorge Letria

José Jorge Letria

José Jorge Letria. Ficcionista, mas também jornalista, poeta, dramaturgo. Nasceu em Cascais, em 1951, onde foi vereador da Cultura entre 1994 e 2002. Tem livros traduzidos em mais de uma dezena de idiomas e foi premiado em Portugal e no estrangeiro, destacando-se dois Grandes Prémios da APE, o Prémio Aula de Poesia de Barcelona, o Prémio Internacional UNESCO, o Prémio Eça de Queiroz – Município de Lisboa e o Prémio da Associação Paulista de Críticos de Arte. O essencial da sua obra poética encontra-se condensado nos dois volumes da antologia O Fantasma da Obra. Ao lado de nomes como José Afonso e Adriano Correia de Oliveira, foi um dos mais destacados cantores políticos portugueses, tendo sido agraciado, em 1997, com a Ordem da Liberdade. É mestre em Estudos da Paz e da Guerra nas Novas Relações Internacionais pela Universidade Autónoma de Lisboa e pós-graduado em Jornalismo Internacional.
Doutorou-se com distinção em Ciências da Comunicação no ISCTE, em Setembro de 2017. É presidente da Sociedade Portuguesa de Autores e do Comité Europeu de Sociedades de Autores da CISAC.
É coautor, com José Fanha, de várias antologias de poesia portuguesa.

VER +

Valdemar Cruz

Natural de S. Pedro da Cova, Gondomar. Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras do Porto, iniciou a sua actividade profissional como jornalista em "O Diário". É jornalista do Semanário "Expresso"desde 1989. Especializou-se em Londres na área do jornalismo cultural. Membro da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto.

VER +
Manuel António Pina

Manuel António Pina

Jornalista e escritor, Manuel António Pina nasceu no ano de 1943, no Sabugal, na Beira Alta, e faleceu a 19 de outubro de 2012, no Porto. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, em 1971, exerceu a advocacia e foi técnico de publicidade. Abraçou a carreira de jornalista no Jornal de Notícias, onde passou a editor. A sua colaboração nos media também se distribui pela rádio e pela televisão.
Autor de livros para a infância e juventude e de textos poéticos, a sua obra apresenta uma grande coesão estrutural e reflete uma grande criatividade, exige do leitor um profundo sentido crítico e descodificador."Brincando" com as palavras e os conceitos, num verdadeiro trocadilho, Manuel António Pina faz da sua obra um permanente "jogo de imaginação", tal labirinto que obriga a um verdadeiro trabalho de desconstrução para se encontrar a saída.
Afirmou-se como uma das mais originais vozes poéticas na expressão pós-pessoana da fragmentação do eu, manifestando, sobretudo a partir de Nenhum Sítio, sob a influência de T. S. Elliot, Milton ou Jorge Luis Borges, uma tendência para a exploração das possibilidades filosóficas do poema, transportando a palavra poética "quer para a investigação do processo de conhecimento quer para a investigação do processo de existência literária" (cf. MARTINS, Manuel Frias - Sombras e Transparências da Literatura, Lisboa, INCM, 1983, p. 72).
Transmissora de valores, muita da sua obra infantil e juvenil é selecionada para fazer parte dos manuais escolares, sendo também integrada em antologias portuguesas e espanholas.
Os seus textos dramáticos são frequentemente representados por grupos e companhias de teatro de todo o país e a sua ficção tem constituído o suporte de alguns programas de entretenimento televisivo, de que é exemplo a série infantil de doze episódios Histórias com Pés e Cabeça, 1979/80.
Como escritor, é autor de vários títulos de poesia, novelas, textos dramáticos e ensaios, entre os quais: em poesia - Nenhum Sítio (1984), O Caminho de Casa (1988), Um Sítio Onde pousar a Cabeça (1991), Algo Parecido Com Isto da Mesma Substância (1992); Farewell Happy Fields (1993), Cuidados Intensivos (1994), Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança (1999), Le Noir (2000), Os Livros (2003); em novela - O Escuro (1997); em texto dramático - História com Reis, Rainhas, Bobos, Bombeiros e Galinhas (1984), A Guerra Do Tabuleiro de Xadrez (1985); no ensaio - Anikki - Bóbó (1997); na crónica - O Anacronista (1994); e, finalmente, na literatura infantil - O País das Pessoas de Pernas para o Ar (1973), Gigões e Anantes (1978), O Têpluquê (1976), O Pássaro da Cabeça (1983), Os Dois Ladrões (1986), Os Piratas (1986), O Inventão (1987), O Tesouro (1993), O Meu Rio é de Ouro (1995), Uma Viagem Fantástica (1996), Morket (1999), Histórias que me contaste tu (1999), O Livro de Desmatemática e A Noite, obra posta em palco pela Companhia de Teatro Pé de Vento, com encenação de João Luís.
A sua obra tem merecido, frequentemente, destaque, tendo sido já homenageado com diversos prémios, como, por exemplo, o Prémio Literário da Casa da Imprensa, em 1978, por Aquele Que Quer Morrer; o Grande Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças e Jovens e a Menção do Júri do Prémio Europeu Pier Paolo Vergerio da Universidade de Pádua, em 1988, por O Inventão; o Prémio do Centro Português de Teatro para a Infância e Juventude, em 1988, pelo conjunto da obra; o Prémio Nacional de Crónica Press Clube/Clube de Jornalistas, em 1993, pelas suas crónicas; o Prémio da Crítica da Associação Portuguesa de Críticos Literários, em 2001, por Atropelamento e Fuga; e o Prémio de Poesia Luís Miguel Nava e o Grande Prémio de Poesia da APE/CTT, ambos pela obra Os Livros, recebidos em 2005. Em 2011 foi-lhe atribuído o Prémio Camões. Já a título póstumo foi ainda galardoado com o Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes, pelo livro «Como se Desenha uma Casa», e com o Prémio Especial da Crítica dos Prémios de Edição Ler/Booktailors 2012, pelo livro Todas as Palavras – Poesia Reunida.

Manuel António Pina. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011.

VER +
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu a 6 de novembro 1919 no Porto, onde passou a infância. Em 1939-1940 estudou Filologia Clássica na Universidade de Lisboa. Publicou os primeiros versos em 1940, nos Cadernos de Poesia. Na sequência do seu casamento com o jornalista, político e advogado Francisco Sousa Tavares, em 1946, passou a viver em Lisboa. Foi mãe de cinco filhos, para quem começou a escrever contos infantis. Além da literatura infantil, Sophia escreveu também contos, artigos, ensaios e teatro. Traduziu Eurípedes, Shakespeare, Claudel, Dante e, para o francês, alguns poetas portugueses.

Em termos cívicos, a escritora caracterizou-se por uma atitude interventiva, tendo denunciado ativamente o regime salazarista e os seus seguidores. Apoiou a candidatura do general Humberto Delgado e fez parte dos movimentos católicos contra o antigo regime, tendo sido um dos subscritores da "Carta dos 101 Católicos" contra a guerra colonial e o apoio da Igreja Católica à política de Salazar. Foi ainda fundadora e membro da Comissão Nacional de Apoio aos Presos Políticos. Após o 25 de Abril, foi eleita para a Assembleia Constituinte, em 1975, pelo círculo do Porto, numa lista do Partido Socialista. Foi também público o seu apoio à independência de Timor-Leste, consagrada em 2002.

A sua obra está traduzida em várias línguas e foi várias vezes premiada, tendo recebido, entre outros, o Prémio Camões 1999, o Prémio Poesia Max Jacob 2001 e o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana – a primeira vez que um português venceu este prestigiado galardão. Com uma linguagem poética quase transparente e íntima, ao mesmo tempo ancorada nos antigos mitos clássicos, Sophia evoca nos seus versos os objetos, as coisas, os seres, os tempos, os mares, os dias.
Faleceu a 2 de julho de 2004, em Lisboa. Dez anos depois, em 2014, foram-lhe concedidas honras de Estado e os seus restos mortais foram trasladados para o Panteão Nacional.

Na data em que se celebrou o seu centenário, 6 de novembro de 2019, é-lhe concedido o grau de Grande-Colar da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada.

VER +
Alice Vieira

Alice Vieira

Alice Vieira nasceu em 1943 em Lisboa. Desde 1979 tem vindo a publicar regularmente tendo editado na Caminho mais de cinco dezenas de títulos. Em 1979 recebeu o Prémio de Literatura Infantil Ano Internacional da Criança com Rosa, Minha Irmã Rosa; em 1994, o Grande Prémio Gulbenkian, pelo conjunto da sua obra. Foi indicada, por duas vezes, como candidata portuguesa ao Prémio Hans Christian Andersen (o mais importante prémio internacional no campo da literatura para crianças e jovens). Alice Vieira é uma das mais importantes escritoras portuguesas para jovens, tendo ganho grande projeção nacional e internacional. Foi igualmente apresentada por duas vezes, como candidata ao ALMA (Astrid Lindgren Memorial Award).

VER +
Matilde Rosa Araújo

Matilde Rosa Araújo

Escritora e pedagoga portuguesa, de seu nome completo Matilde Rosa Lopes de Araújo, nascida em 1921, em Lisboa. Tendo feito os seus estudos liceais com professores particulares, licenciou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa em 1945. Teve ainda uma apurada formação musical, com a frequência do Curso Superior do Conservatório da mesma cidade.
Personalidade sempre ligada à escrita e ao ensino, foi professora do Ensino Técnico-Profissional durante longos anos, encarregando-se também da formação de professores, nomeadamente na Escola do Magistério Primário de Lisboa e no âmbito da literatura para a infância. Enquanto cidadã, dedicou-se aos problemas da criança e à defesa dos seus direitos.
Tendo iniciado a sua vida literária ainda no tempo da frequência universitária, Matilde Rosa Araújo colaborou abundantemente em várias publicações periódicas ao longo das décadas seguintes. Por outro lado, o conjunto dos seus livros (de poesia e narrativa) constitui um dos mais significativos trabalhos de sempre da literatura portuguesa para e sobre a infância e a juventude. De entre as cerca de três dezenas de títulos publicados, merecem destaque, pela fina sensibilidade que revelam à vivência da infância, obras como O Livro da Tila (1957), O Palhaço Verde (1962), História de um Rapaz (1963), O Reino das Sete Pontas (1974), A Velha do Bosque (1983) e, de 1994, As Fadas Verdes e O Chão e a Estrela.
Matilde Rosa Araújo recebeu vários prémios de relevo no domínio da literatura para a infância. Em 1980, foi-lhe atribuído o Grande Prémio de Literatura para a Infância da Fundação Calouste Gulbenkian (ex aequo). Em 1991 ganhou, no Brasil, um prémio para o melhor livro estrangeiro, atribuído a O Palhaço Verde pela Associação Paulista de Críticos de Arte. O seu livro de poemas As Fadas Verdes recebeu, em 1996, a distinção da Fundação Calouste Gulbenkian para o melhor livro para a infância publicado no biénio 1994-1995.
A autora publicou também textos de ficção para adultos e obras que demonstram as suas qualidades de pedagoga. São de sua autoria alguns volumes sobre a importância da infância na criação literária para adultos e sobre a importância da literatura infantojuvenil na formação da criança, na educação do sentimento poético como raiz pedagógica de valia.
Em maio de 2004 foi distinguida com o Prémio Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores.
Faleceu a 6 de julho de 2010, aos 89 anos, na sua casa, em Lisboa.

VER +

10%

O Tesouro
14,40€
10% CARTÃO LEITOR BERTRAND
PORTES GRÁTIS

10%

O Soldado e o Capitão os Cravos e o Povão
10,04€
10% CARTÃO LEITOR BERTRAND
PORTES GRÁTIS

10%

Vinte Cinco a Sete Vozes
11,00€
10% CARTÃO LEITOR BERTRAND
PORTES GRÁTIS

10%

História de Uma Flor
9,90€
10% CARTÃO LEITOR BERTRAND
PORTES GRÁTIS

10%

O 25 de Abril Contado às Crianças… e aos Outros
12,50€
10% CARTÃO LEITOR BERTRAND
PORTES GRÁTIS

10%

É Assim a Ditadura
14,00€
10% CARTÃO LEITOR BERTRAND
PORTES GRÁTIS

10%

Como Pode Ser a Democracia
14,00€
10% CARTÃO LEITOR BERTRAND
PORTES GRÁTIS

10%

25 de Abrir
12,90€
10% CARTÃO LEITOR BERTRAND
PORTES GRÁTIS

10%

Romance do 25 de Abril
9,90€
10% CARTÃO LEITOR BERTRAND
PORTES GRÁTIS

Escreveu o autor de livros infantis Hans Christian Andersen que “apenas viver não é suficiente. (…) É preciso ter sol, liberdade e uma pequena flor.” Na história do nosso país, existe uma flor que, a 25 de abril de 1974, se tornou um símbolo da liberdade de todos os Portugueses. O Ponto de Interrogação conversou com vários escritores e músicos para conhecer a história deste dia.


Como era viver em Portugal antes do dia 25 de abril de 1974?


Manuel António Pina: Costumo chamar a Portugal antes desse dia o País das pessoas tristes. As pessoas não podiam fazer o que queriam ou dizer o que pensavam ou sentiam, nem sequer podiam visitar outros países e conhecer outros povos. Viviam fechadas no seu país como se ele fosse uma prisão.


José Jorge Letria: Os únicos que saíam do país eram os que iam para a guerra ou os que conseguiram fugir para não ter de combater nela. Nessa altura, milhares de jovens portugueses foram obrigados a combater na Guerra Colonial, em África. É quase certo que algum homem da tua família esteve nessa guerra. Talvez um tio ou, quem sabe, o teu avô.


Manuel António Pina: Imagina como seria não poderes fazer o que querias, não poder ouvir as músicas nem ler os livros e as revistas de que gostavas — apenas poder ler e ouvir o que não era proibido. Nem sequer podias beber Coca-Cola, porque também era proibida! As raparigas e os rapazes não podiam conversar nem conviver uns com os outros e tinham de andar em escolas separadas e brincar em recreios separados por muros e por grades.

 

Quem decidia o que era proibido e como?


José Jorge Letria: Quem governava o país nessa altura era um homem chamado António de Oliveira Salazar, que esteve no poder durante mais de 40 anos. Era um homem de poucas falas, muito desconfiado e solitário. Praticamente não confiava em ninguém. Tomava as decisões sozinho e ai de quem o tentasse contrariar! Foi ele quem instaurou o chamado regime do Estado Novo em Portugal.


Valdemar Cruz: Para controlar se as pessoas obedeciam às ordens do regime, havia uma polícia que vigiava os movimentos e as opiniões de todos – a Polícia Internacional de Defesa do Estado, ou PIDE. Pensa numa coisa de que tenhas muito medo. A PIDE era isso. Era a noite e o medo da noite.


José Jorge Letria: Para além disso, não existiam eleições livres. As pessoas que ocupavam cargos como Presidente da Câmara ou deputado eram escolhidas com base na confiança que o regime depositava nelas. Até mesmo o Presidente da República era escolhido por Salazar. Era como se ele fosse o menino rico da rua, que é dono da bola, do campo de futebol, das chuteiras e dos equipamentos e que, na hora de preparar o jogo, escolhe a equipa toda, decide quem joga e quem não joga, quem é expulso e quem permanece em jogo. Até escolhia o resultado, mesmo antes de
o jogo começar! A isto chama-se ditadura.

 

Qual é a diferença entre a ditadura e a democracia, o regime em que vivemos atualmente?


Alice Vieira: Para além de as pessoas não poderem eleger quem queriam, na ditadura existia uma coisa chamada censura. Todos os dias eram presos estudantes pois faziam greve e manifestações para mostrar o seu descontentamento e isso era considerado ilegal. A polícia prendia-os e agredia-os e, no dia seguinte, nos jornais, a censura não deixava que fosse publicada nem uma palavra sobre o assunto. Nem na televisão, evidentemente. Parecia um filme de ficção científica, sabes? Vivíamos coisas que para as outras pessoas não existiam.


José Jorge Letria: Pelo contrário, quando vivemos em democracia as diferenças de opinião são aceites e as pessoas são livres de votar em quem quiserem. Até ao 25 de abril de 1974, não havia democracia e, portanto, não havia nenhuma das liberdades que fazem parte dela – a liberdade de opinião, de expressão do pensamento e de associação. Por causa disso, quem tomasse posição publicamente sobre o regime ou sobre a guerra, era preso e maltratado.


Sérgio Godinho: Vários músicos, como eu, foram presos ou tiveram de fugir do país durante a ditadura, por cantarem sobre a liberdade e o sonho da democracia. Numa das minhas canções há uma frase conhecida que diz que a democracia é o pior de todos os sistemas, com exceção de todos os outros. Isso quer dizer que não é um sistema perfeito, mas continua a ser o melhor que temos.


O que aconteceu no dia 25 de abril de 1974?


Zeca Afonso: Esse dia começou com música. Primeiro, a canção E depois do Adeus, de Paulo Carvalho, ecoou na rádio. Depois, a minha canção, Grândola, Vila Morena. Possivelmente já a ouviste, mas, na altura, era uma canção proibida. Como era também proibido qualquer tipo de ajuntamento e, sobretudo, de protesto, os soldados — que vieram a ficar conhecidos como Capitães de Abril — utilizaram estas duas canções como sinal para darem início ao golpe de Estado que derrubaria a ditadura.

 

Manuel António Pina: Quando as tropas começaram a tomar os quartéis e foi possível começar a sentir os ventos da mudança, toda a gente saiu alvoroçadamente para a rua e acompanhou os soldados cantando e gritando: «Viva a liberdade!». As janelas encheram-se de bandeiras e de cravos vermelhos. Por todo o lado, pessoas marchavam pelas ruas com cravos vermelhos ao peito e os soldados puseram-nos nas suas espingardas.


Matilde Rosa Araújo: É por isso que a Revolução de 25 de abril de 1974 ficou também conhecida como a Revolução dos Cravos. Na rua, mães choravam enquanto seguravam os filhos, pois haviam entendido a alegria única das flores no peito de toda gente. Limpando as lágrimas, continuavam a caminhada pelas ruas húmidas de alegria, como rios livres a correrem para o mar.

 

Como foi acordar nesse primeiro dia em que os portugueses conheceram, finalmente, a liberdade?


Sophia de Mello Breyner: Escrevi um poema sobre isso em que se pode ler: «Esta é a madrugada que eu esperava/ O dia inicial inteiro e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a substância do tempo». Esse dia foi como um novo começo, «como tempo novo / sem mancha nem vício», como escrevi num outro poema, intitulado Revolução.


Manuel António Pina: A liberdade é como o ar que respiramos: só quando nos falta e sufocamos cheios de aflição é que descobrimos que, sem ele, não podemos viver. Nesse dia, os portugueses puderam respirar de alívio pela primeira vez.

 

Porque é tão importante que o dia 25 de abril seja feriado nacional e que continuemos a contar a sua história?


Alice Vieira: O tempo separa muito as pessoas, e a memória vai-se gastando também. Temos de contar esta história muitas vezes, para as pessoas não esquecerem, para estarem sempre atentas e não deixarem que coisas destas voltem a acontecer.


José Jorge Letria: Quando terminou a ditadura, acabou também o silêncio que nos obrigavam a manter sobre ela. E essa foi uma das grandes vitórias do 25 de abril. Dias como este só se mantêm vivos se nos lembrarmos do seu significado e lhe dermos sentido nas nossas vidas. O 25 de abril é sinónimo de liberdade, mas a liberdade, como as plantas e as flores, acaba por murchar se não a regares com frequência.

 


Entrevista ficcionada, inspirada nos poemas de Sophia de Mello Breyner, nas canções de Sérgio Godinho e Zeca Afonso e nos seguintes livros:

 

X
O QUE É O CHECKOUT EXPRESSO?


O ‘Checkout Expresso’ utiliza os seus dados habituais (morada e/ou forma de envio, meio de pagamento e dados de faturação) para que a sua compra seja muito mais rápida. Assim, não tem de os indicar de cada vez que fizer uma compra. Em qualquer altura, pode atualizar estes dados na sua ‘Área de Cliente’.

Para que lhe sobre mais tempo para as suas leituras.