Um poema para celebrar Florbela Espanca

Por: Cláudia Oliveira a 2025-12-08

Florbela Espanca

Florbela Espanca

Poetisa e contista. Depois de concluir os estudos liceais em Évora, frequentou a Faculdade de Direito de Lisboa. A abordagem crítica da sua obra poética, marcada pela exaltação passional, tem permanecido demasiado devedora de correlações, mais ou menos implícitas, estabelecidas entre o seu conturbado percurso biográfico - uma existência amorosa e socialmente malograda que culminaria com um suicídio aos 36 anos de idade -, e uma voz poética feminina, egotista e sentimental, singularmente isolada no contexto literário das primeiras décadas do século. Na verdade, a leitura mais imparcial das suas composições, entre as quais se contam alguns dos mais belos sonetos da língua portuguesa, permite posicioná-la quer na matriz de uma poesia finissecular que, formalmente, cruza caracteres decadentistas, simbolistas (são várias as referências na sua poesia a autores simbolistas) e neorromânticos (acusando a admiração por certos autores da terceira geração romântica, como Antero de Quental), "à maneira de um epígono de António Nobre" (cf. PEREIRA, José Augusto Seabra - prefácio a Obras Completas de Florbela Espanca, vol. I, Poesia, Lisboa, D. Quixote, 1985, p. IV), quer, ainda, pela forma como a vivência do amor promove, a cada passo, uma mitificação do eu, na senda de certos autores do primeiro modernismo como Sá-Carneiro, Alfredo Guisado ou António Botto. Por outra via, a da literatura mística, Florbela Espanca reata conscientemente ("Soror Saudade") com a tradição da literatura claustral feminina que recebera, no período de maior florescimento, uma marca conceptista, mantida na poética de Florbela por certa propensão para a exploração das antíteses morte/vida, amor/dor, verdade/engano. A imagem da mulher que sofre de ilusão em ilusão amorosa, que reitera até ao desespero a sua fatalidade, que dá expressão a uma existência irremediavelmente minada pela ansiedade e pela incompreensão, acabou por, na receção alargada da sua poesia, sobrepor-se a outros nexos temáticos com igual pertinência, como a dor de pensar e a aspiração à simplicidade ("Quem me dera voltar à inocência / Das coisas brutas, sãs, inanimadas, / Despir o vão orgulho, a incoerência: / - Mantos rotos de estátuas mutiladas!" ("Não Ser"); ou a forma como a busca do amor se volve essencialmente em busca de si mesma através dos estilhaços de um ser que não sabe ser sozinho: "Ó pavoroso mal de ser sozinha! / Ó pavoroso e atroz mal de trazer / Tantas almas a rir dentro da minha!" ("Loucura", in Sonetos). Florbela Espanca.

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Florbela Espanca nasceu no Alentejo, em Vila Viçosa, no dia 8 de dezembro de 1894. Embora tenha vivido apenas 36 anos, é uma das figuras mais importantes da poesia portuguesa do século XX, conhecida pela intensidade emocional e pelo lirismo apaixonado da sua obra.

No dia do seu nascimento (e também da sua morte) celebramos não apenas a mulher por trás da poesia, como revisitamos a sua obra, dominada por sonetos e onde o amor, a dor e o desejo se entrelaçam. A sua importância transcende a sua obra, influenciando gerações futuras pela forma de se expressar e pelo desafio às convenções sociais e literárias do seu tempo. 

Recomendamos a leitura das suas principais obras: Livro de Mágoas, Livro de Sóror Saudade, assim como a antologia completa de sonetos E Dizê-lo Cantando a Toda Gente, para sentir o impacto emocional e a intensidade da sua escrita. Esta autora emblemática do início do século XX português não se cingiu à poesia: conheça também seis contos da sua autoria na coleção O Dominó Preto.

Partilhamos também consigo um dos nossos poemas preferidos de Florbela, para que a sua chama nunca se apague.

Lágrimas ocultas

Se me ponho a cismar em outras eras 
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas, 
Parece-me que foi numa outra vida...
E a minha triste boca dolorida, 
Que dantes tinha o rir das Primaveras,
Esbate as linhas graves e severas 
E cai num abandono de esquecida!
E fico, pensativa, olhando o vago... 
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim... 
E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim! 

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