Três Poemas Para Recordar Walt Whitman

Por: Maria João Viegas a 2026-05-31

Walt Whitman

Walt Whitman

Considerado o grande poeta da Revolução Americana – ou até mesmo o maior poeta de toda a literatura americana – o nova-iorquino Walt Whitman (1819-1892) destacou-se no estilo do verso livre, sem restrições métricas, mas também com um pensamento que dessa forma funcionava: sem limites e regras.
Dele escreveu Fernando Pessoa: «Introduziu uma nova subjetividade na conceção poética e fez da sua poesia um hino à vida.»
Whitman foi, no verdadeiro e justo entendimento do termo, um visionário. Celebrou o homem e a natureza, incentivando pelas suas palavras os mais nobres ideais de comunhão, de partilha e de participação democrática nos Estados Unidos da América.
Se fosse vivo, talvez Walt Whitman hoje escrevesse coisas parecidas às de outrora, de tão imutáveis que parecem ser os sentimentos que descreveu, de tão evidente que era, para o autor, a delicadeza da condição humana, do amor, do sexo, da vida em comunhão nas cidades e dos caminhos difíceis que juntos continuamos a percorrer.

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Foi hoje, há 207 anos, que nasceu Walt Whitman, merecidamente reconhecido como uma das maiores vozes da poesia americana e uma figura incontornável da literatura universal. 

Considerado o “pai do verso livre”, Whitman revolucionou a poesia ao afastar-se das métricas rígidas e das estruturas tradicionais, criando versos expansivos, rítmicos e profundamente humanos, mesmo não obedecendo às convenções esperadas. 

Ao longo das décadas, muitas palavras foram usadas para descrever a poesia de Whitman. Críticos conservadores da época acusaram-na de ser “indisciplinada” e marcada por um “egoísmo audacioso”, escandalizados pela forma frontal como celebrava o corpo, a natureza, o desejo, a democracia, o indivíduo e a comunidade. Rotularam-na como presunçosa, descarada, excessiva e obscena — mas, acima de tudo, livre. Inevitavelmente, a sua frontalidade face a estes temas gerou polémica na sociedade do século XIX, mas também o transformou numa figura icónica e pioneira. 

Publicado pela primeira vez em 1855, Folhas de Erva tornou-se o grande projeto da sua vida, sendo continuamente revisto e ampliado pelo autor ao longo de várias décadas. É nesta obra que encontramos alguns dos seus poemas mais emblemáticos. 

A influência de Whitman atravessou gerações e disciplinas artísticas, desde o inesquecível Ó capitão! Meu capitão! em Clube dos Poetas Mortos, à referência ao “outro” W.W. em Breaking Bad. Todavia, o legado do poeta não se estende apenas à sua pátria americana. Os seus versos ecoaram também em Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa, particularmente em poemas como a Ode Triunfal e Saudação a Walt Whitman, andando de mãos dadas, dançando o universo na alma. A exaltação da modernidade, da velocidade, da multidão e da experiência total do mundo aproxima ambos os autores, tornando Whitman numa importante figura precursora das sensibilidades futuristas que marcariam — entre vários — a poesia de Campos. 

Essa ligação entre Whitman e Pessoa encontra-se também celebrada numa dupla edição que reúne o último poema mencionado, e o emblemático Canto de Mim Mesmo, aproximando duas grandes vozes da poesia que, apesar da distância geográfica e temporal, parecem dialogar entre si. 

À voz de Campos — e de tantos outros poetas, artistas e leitores que continuam a ecoar os seus versos — saudamos hoje Walt Whitman, apresentando alguns dos seus poemas

 

A Um Desconhecido

Desconhecido que passas!, não imaginas com que ansiedade eu te contemplo,
Deves ser aquele ou aquela que eu procurava (isto ocorre-me como vindo de um sonho),
Vivi certamente algures uma vida de alegria contigo,
Tudo isto eu evoco ao passarmos um pelo outro, fluidos, afectuosos, castos, amadurecidos;
Cresceste comigo, foste um rapaz comigo ou uma rapariga comigo,
Comi e dormi contigo, o teu corpo não se tornou só teu nem o meu corpo só meu,
Dás-me o prazer dos teus olhos, rosto, carne, ao passarmos, e em troca, apoderas-te da minha barba, peito, mãos,
Não te vou falar, vou pensar em ti quando me sento sozinho ou acordo de noite só,
Vou esperar, não duvido que te vou encontrar de novo,
É o que tenho de fazer para não te perder.

— Folhas de Erva, 1855.

Cronistas dos séculos que hão-de vir

Cronistas dos séculos que hão-de vir,
Venham, vou fazer-vos entender o que está sob a minha impassibilidade, dizer-vos o que há a dizer a meu respeito,
Publiquem o meu nome e pendurem o meu retrato como o do amante mais terno,
O retrato do amante, do amigo, de quem o seu amigo era o amante mais delicado,
Que não estava orgulhoso das suas canções, mas do imenso oceano de amor dentro de si, que espontaneamente se derramava,
Que muitas vezes caminhava só, recordando os amigos queridos, os seus amantes,
Que, pensativo, longe daquele que amava, muitas vezes, passou muitas noites sem dormir, triste,
Que conheceu demasiado bem o doentio medo, receando que aquele que amava lhe fosse secretamente indiferente,
Cujos dias mais felizes foram passados longe nos campos, nos bosques, nos montes, ele e um outro vagueando de mãos dadas, os dois isolados dos outros homens,
Que muitas vezes enquanto vagueava pelas ruas apoiava o braço no ombro do seu amigo, enquanto o braço deste se apoiava igualmente no seu.

— Folhas de Erva, 1855.

Aos que Falharam

Aos que falharam, grandes na aspiração,
aos soldados sem nome caídos na vanguarda do combate,
aos calmos e esforçados engenheiros, aos pilotos nos barcos,
aos super-ardorosos viajantes,
a tão sublimes cantos e pinturas sem reconhecimento
— eu gostaria de erguer um momento coberto de louros
alto, bem alto, acima dos demais:
A todos os truncados antes do tempo,
arrebatados por algum estranho espírito de fogo,
tocados por morte prematura.

— Folhas de Erva, 1855.

 

Assista abaixo uma declamação deste último poema, na voz de Pedro Fernandes de Almeida.

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