Celebramos hoje, dia 12 de maio, o nonagésimo aniversário de Manuel Alegre, uma das vozes mais marcantes da literatura portuguesa contemporânea.
Natural de Águeda, o poeta, romancista, e figura incontornável na política portuguesa destacou-se, desde cedo, pelo seu contributo para a oposição e combate à ditadura do Estado Novo. Perseguido pela PIDE e mais tarde exilado em Argel, colaborou com a emissora Voz da Liberdade, ligada à resistência antifascista portuguesa. Retornando a Portugal após o 25 de Abril, contribuiu para a redação da Constituição de 1976, e manteve uma longa carreira política enquanto dirigente do Partido Socialista, chegando a ocupar o cargo de vice-presidente da Assembleia da República e membro do Conselho de Estado, sustentando continuamente uma intervenção cívica que atravessa também a sua escrita.
Com uma vasta obra literária que transcende décadas, profundamente ligada a temas como o amor, a liberdade, a memória e Portugal, a sua escrita continua a tocar e atravessar gerações de leitores, e a ocupar um lugar fundamental na literatura portuguesa. Reconhecido por obras como os seus romances Jornada de África (1989) e Cão Como Nós (2002), tal como os seus versos encontrados em Praça da Canção (1965) e Livro do Português Errante (2001), foi eleito vencedor dos prestigiados Prémio Pessoa em 1999, e o Prémio Camões em 2017.
Para assinalar esta data, homenageamos Manuel Alegre reunindo três dos seus poemas.
Abaixo el-rei Sebastião
É preciso enterrar el-rei Sebastião
é preciso dizer a toda a gente
que o Desejado já não pode vir.
É preciso quebrar na ideia e na canção
a guitarra fantástica e doente
que alguém trouxe de Alcácer Quibir.
Eu digo que está morto.
Deixai em paz el-rei Sebastião
deixai-o no desastre e na loucura.
Sem precisarmos de sair o porto
temos aqui à mão
a terra da aventura.
Vós que trazeis por dentro
de cada gesto
uma cansada humilhação
deixai falar na vossa voz a voz do vento
cantai em tom de grito e de protesto
matai dentro de vós el-rei Sebastião.
Quem vai tocar a rebate
os sinos de Portugal?
Poeta: é tempo de um punhal
por dentro da canção.
Que é preciso bater em quem nos bate
é preciso enterrar el-rei Sebastião.
— O Canto e as Armas, 1967.
Abril de Abril
Era um Abril de amigo Abril de trigo
Abril de trevo e trégua e vinho e húmus
Abril de novos ritmos novos rumos.
Era um Abril comigo Abril contigo
ainda só ardor e sem ardil
Abril sem adjectivo Abril de Abril.
Era um Abril na praça Abril de massas
era um Abril na rua Abril a rodos
Abril de sol que nasce para todos.
Abril de vinho e sonho em nossas taças
era um Abril de clava Abril em acto
em mil novecentos e setenta e quatro.
Era um Abril viril Abril tão bravo
Abril de boca a abrir-se Abril palavra
esse Abril em que Abril se libertava.
Era um Abril de clava Abril de cravo
Abril de mão na mão e sem fantasmas
esse Abril em que Abril floriu nas armas.
Coisa amar
Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.
Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.
Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi
desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.
— Coisa Amar (Coisas do Mar), 1976.