O futuro já cá está e é das crianças

Por: Beatriz Sertório a 2023-08-10 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Capicua

Capicua

Ana Matos Fernandes, ou Capicua, nasce no Porto nos anos 80, descobre a cultura Hip Hop nos anos 90 e torna-se Rapper nos anos 00.
Socióloga de formação, acabou por fazer da música o seu principal ofício e é conhecida pela sua escrita emotiva, feminista e politicamente engajada.
A sua discografia conta com duas mixtapes e três álbuns em nome próprio, um disco de remisturas, dois discos-livro para crianças, um disco luso-brasileiro colaborativo e um EP ao vivo.
Na última década, tem somado concertos, workshops e projetos sociais, tem conquistado um público muito diverso e acumulado colaborações com vários artistas lusófonos.
De assinalar é também o seu aclamado percurso como letrista para vários intérpretes e a sua atividade como cronista na revista Visão (2015-2021) e agora no Jornal de Notícias.

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Ana Matos Fernandes, que todos conhecemos como Capicua, quis ser professora de windsurf, bailarina e merceeira, mas o fascínio pelas palavras conduziu-a ao rap e, desde 2016, em conjunto com Pedro Geraldes e, mais tarde, com Francisca Cortesão e António Serginho, à criação de Mão Verde, um projeto musical para crianças (e não só), que é também uma desculpa para falar sobre questões como o feminismo e a ecologia.

 


 

Já confessou em várias entrevistas que as palavras foram o seu primeiro amor e só depois veio a música. Lembra-se de alguns livros que tenha lido durante a infância e que contribuíram para o florescimento deste amor?

O meu amor pelas palavras não nasceu apenas dos livros, nasceu também da música que os meus pais ouviam e que eu achava que era música para crianças. Nomeadamente, do Zeca Afonso, do Sérgio Godinho, do José Mário Branco, do Fausto… Até porque o meu pai me explicou que aquelas canções tinham mensagens encriptadas, para driblar a censura, e eu achei aquilo tudo muito mágico. E depois não só nos livros como também nas lengalengas, nas canções do infantário, nos jogos de palavras. O meu pai dizia palavras ao contrário e eu também achava muita piada. A minha mãe lia-me sempre histórias para adormecer. Havia uma que era a do Macaco do Rabo Cortado, que acabava com uma lengalenga que eu adorava! Também me lembro do meu primeiro livro de poesia, que era uma seleção de poemas da Sophia de Mello Breyner para a infância, e que me marcou pelo fascínio pelo lado poético da escrita. Sempre gostei muito de livros, também pelas ilustrações, não só pelas palavras.
 

Era sempre mais Mafalda do que Susaninha
Ai de quem dissesse mal do Sérgio Godinho
Ainda tenho alguns postais para a gentil menina
Enviados pelos pais de um qualquer destino
E se alguém me perguntar pelo pai, pela mãe
Eu sei, sei, foram para Vayorken, Vayorken
Foram para Vayorken, Vayorken, Vayorken

Excerto de “Vayorken”, de Capicua

 

Num verso da canção “Vayorken”, diz que sempre foi “mais Mafalda do que Susaninha”, referindo-se à popular personagem de BD de Quino. É por isso que as suas canções têm sempre uma mensagem importante?

Acho que sim, eu sempre tive um olhar muito crítico em relação às coisas, muito questionador, e queria perceber as causas por trás da realidade. Também sempre tive interesse pela política e pelas conversas dos adultos. Portanto, acho que esse meu interesse, que vem da infância, ajudou a formar aquilo que foi o meu percurso, desde o associativismo juvenil, à militância num partido de esquerda, na adolescência, depois a escolha de estudar Ciências Sociais, o meu interesse pelo rap e o seu lado interventivo, por muitas causas que até hoje são transversais ao meu trabalho… Portanto, acho que sim, ter sido Mafaldinha desde sempre fez de mim aquilo que eu sou e do meu trabalho aquilo que é.
 

O projeto Mão Verde, que desenvolveu em conjunto com Pedro Geraldes, pode também ser visto como uma forma de ensinar as crianças a serem mais Mafalda. Como é que se cativa as crianças para se preocuparem com causas como a ecologia e o feminismo? 

Se conseguirmos dar estímulos positivos às crianças, para elas poderem pensar pela sua própria cabeça, para questionarem porque é que as coisas são como são, para se preocuparem com os problemas do mundo, para criar empatia em relação às pessoas que vivem em condição de desigualdade, acho que isso só pode ser positivo. É como aquela frase que diz: “Se não consegues dar um mundo melhor aos teus filhos, experimenta criar filhos melhores para o mundo.” E eu acredito nisso.
 

Várias canções dos discos-livro Mão Verde mencionam também a importância dos livros e da leitura. Pode a música ser um aliado no incentivo à leitura?

Claro, da mesma forma que eu preciso de livros, de cinema, de conversas, de viagens, para fazer música, para me inspirar, para ter referências, para me fazer pensar, questionar, etc., acredito que se nós estimularmos as crianças para a cultura, para a arte, para a beleza das coisas, para a natureza, para terem um olhar interessado sobre o mundo, todas essas coisas vão influenciar a sua capacidade de absorção de todos os estímulos e encantamentos que o mundo pode proporcionar. E, portanto, se mostrarmos música às crianças, com boas letras, que as façam sonhar, que as façam imaginar, que as façam questionar, acho que elas vão necessariamente tornar-se crianças mais interessantes e mais interessadas e, naturalmente, vão ter mais interesse em ir a exposições, em ler livros, em ir a espetáculos de teatro. Porque elas são esponjas e quanto mais lhes abrimos os horizontes, mais elas querem absorver o mundo.
 

Um dos lemas deste projeto é “música para crianças que não se quer infantil”, o que nos faz lembrar de uma citação de Álvaro Magalhães que diz: “Quando [um livro] for lido por uma criança é um livro para crianças. Quando for lido por um adulto é um livro para adultos. Os livros não são para, os livros são.” Acredita que na música também é assim? 

Acredito mesmo. Acho que há a ideia de que a música para crianças tem de ser pouco sofisticada, que as canções têm de ser curtas, que têm de ser muito levezinhas, pouco complexas ou pouco exigentes, e eu não acredito nada nisso. Acho que a música tem de ter qualidade, independentemente se é para crianças ou não. E acredito que se a música for boa, todas as gerações vão querer ouvir. A nossa proposta sempre foi chegar às gerações todas. Sempre dissemos que a proposta da Mão Verde é “música para crianças que não se quer infantil”, no sentido em que não se quer uma coisa pateta ou pouco sofisticada. E acho que resulta, basta ver que nos nossos concertos os adultos se divertem tanto como as crianças.
 

Falando em Álvaro Magalhães, o segundo disco-livro da Mão Verde foi recentemente distinguido com uma Menção Especial da primeira edição do Prémio Literário Álvaro Magalhães. O que significou para si e para os restantes membros do projeto este reconhecimento?

Ficámos todos muito contentes, eu em particular porque as letras/poemas são da minha autoria e foi o meu primeiro prémio literário, digamos assim. Apesar de ter sido uma Menção Especial, já soube a prémio literário com “P” grande porque, de facto, fiquei muito feliz. As letras foram feitas para serem cantadas e o facto de elas sobreviverem no papel, como um poema, era uma preocupação minha. E nem sempre é fácil, porque às vezes o que resulta em canção fica estranho ou pobre, ou não tem tanto potencial, quando lido. Então, este prémio também me dá o reconhecimento de que consegui fazer isso. Fiquei muito orgulhosa.
 

Plástico não é plankton
É prático, mas não é bom
Para o peixe ou pro homem
O plástico ninguém come
Plástico não é plâncton
É prático, mas não é bom
Do Ártico ao Antártico
É tóxico e consome


Excerto de “Plástico não é Plâncton”, do projeto Mão Verde


Que livros gosta de ler para o Romeu [filho da Capicua]?

Leio para ele todos os dias e gosto muito dos livros da editora Planeta Tangerina. Adoro O Livro dos Quintais, é um dos meus favoritos. Também ando a ler-lhe um livro de poemas do António Torrado. Há muita coisa boa! É impossível escolher dois ou três, porque há mesmo muita literatura infantil de qualidade, com ilustração também muito interessante. Para mim, ir a uma livraria com livros infantis é uma perdição.


No mês em que esta revista irá chegar às mãos dos nossos leitores, celebramos o Dia Mundial dos Oceanos e o Dia Mundial do Meio Ambiente, duas causas muito queridas para o projeto Mão Verde e das quais músicas como “Plástico não é Plâncton” ou “Marcha da Greta” poderiam ser verdadeiros hinos. Como encara o futuro do nosso planeta e o papel das futuras gerações na sua preservação?

Encaro com muita preocupação porque, de facto, temos desafios esmagadores e é fácil cairmos na ansiedade. A mim, causa-me muito stresse todas as notícias sobre as alterações climáticas, toda esta inércia dos nossos governantes em fazer de facto alguma coisa que faça a diferença em ter-mos de políticas ambientais e de substituição dos combustíveis fósseis. Preocupa-me também porque as próximas gerações não vão ter direito a coisas que nós demos sempre como adquiridas, como o acesso à água: vão existir imensos refugiados do clima, vários problemas muito complexos se avizinham e que já estão a bater-nos à porta…
 

Esta entrevista foi publicada na edição de verão da revista Somos Livros infantil.

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