No dia em que se assinala o nascimento de Camilo Castelo Branco (16 de março) recordamos um dos episódios mais surpreendentes da sua vida. Romancista, jornalista, figura incontornável do Romantismo português, Camilo escreveu mais de duzentas obras e tornou-se numa das vozes mais reconhecíveis da nossa literatura. Mas por trás da figura impressionante havia uma vida pessoal tumultuada, feita de amores intensos e de preços altos a pagar por eles, um desses sendo a prisão. E foi precisamente aí, numa cela, que nasceu o livro pelo qual é hoje mais lembrado: Amor de Perdição, um dos grandes clássicos da literatura portuguesa.
Camilo Castelo Branco e Ana Plácido conheceram-se no Porto, em meados da década de 1850, na Associação Portuense. Ela tinha dezanove anos, era culta, leitora apaixonada e vivia presa num casamento infeliz com o comerciante Manuel Pinheiro Alves, um homem abastado, muito mais velho e profundamente ciumento. Camilo, já então conhecido pelo seu temperamento impetuoso e pela vida sentimental atribulada, aproximou-se de Ana através da literatura e da correspondência. A ligação entre os dois depressa ultrapassou a amizade. Anos mais tarde, tornaram-se amantes numa sociedade onde o adultério era não apenas um escândalo moral, mas também um crime previsto na lei.
Corria o ano de 1860 quando tudo veio a público. O marido de Ana apresentou queixa por adultério e os dois acabaram detidos na Cadeia da Relação do Porto. Camilo ficaria ali durante 383 noites. O caso fez correr muita tinta e dividiu a sociedade portuguesa. Conta-se até que o próprio rei D. Pedro V o visitou na prisão, por duas vezes.
Mas foi o que Camilo fez dentro da cela que ficou para sempre na história da literatura: com tempo, papel e a companhia das suas angústias, começou a escrever. E foi então que, a folhear os registos da cadeia, encontrou um nome que conhecia bem: Simão Botelho, seu tio paterno. Também ele tinha estado preso ali, décadas antes, por amor, condenado ao degredo por matar o rival que se colocou entre ele e a mulher que amava.
Camilo pegou nessa história, que já lhe tinha sido contada por uma tia, e escreveu Amor de Perdição em apenas quinze dias, “os mais atormentados da minha vida”, como confessaria mais tarde. O resultado foi uma das obras mais intensas do Romantismo português: a história de Simão e Teresa, filhos de famílias rivais, separados pelo mundo e unidos apenas pela tragédia.
Há uma ironia impossível de ignorar: Camilo escreveu um livro sobre um amor condenado, enquanto estava preso pelo seu próprio amor. Mas este não se perdeu: ao ser julgado, em outubro de 1861, foi absolvido por falta de provas, numa decisão tomada pelo juiz José Maria de Almeida Teixeira de Queirós, pai de Eça de Queirós. Saiu da cadeia, voltou para Ana Plácido, e os dois viveram juntos pelo resto das suas vidas.
Amor de Perdição seria publicado em 1862 e tornar-se-ia uma das obras mais lidas da literatura portuguesa.
Durante o tempo que passou na prisão, Camilo escreveu também um conjunto de textos reunidos mais tarde sob o título Memórias do Cárcere. Neles, descreve o quotidiano da cadeia, os companheiros de cela e o ambiente da justiça portuguesa do século XIX. Mais do que um simples testemunho, estes cadernos revelam um escritor que transformou a experiência pessoal em matéria literária, mostrando como até o cárcere podia tornar-se lugar de criação.
Ana também não ficou parada: levou para a cela uma biblioteca pessoal de cerca de 500 livros e muito material de escrita, e de lá saiu Luz Coada por Ferros, o seu livro mais íntimo.