O escritor e cronista Miguel Esteves Cardoso foi o vencedor do Grande Prémio de Crónica e Dispersos Literários, da Associação Portuguesa de Escritores (APE), com o livro Independente Demente (Bertrand Editora), anunciou esta quarta-feira a organização.
O Grande Prémio de Literatura Crónica e Dispersos Literários APE/Câmara Municipal de Loulé foi atribuído por um júri constituído por António Apolinário Lourenço, Carlos Albino Guerreiro e Maria de Lurdes Sampaio. Na ata de atribuição do prémio, o júri considera que "Miguel Esteves Cardoso inventou uma subespécie de crónicas, nas quais o humor e a auto-ironia são elementos estruturantes da reflexão, pessoal, social e política, sem que isso diminua o alcance e a eficácia do comentário e da sátira", tendo acrescentado que "Embora tenham sido publicadas há mais de trinta anos, no extinto semanário O Independente, as crónicas aqui reunidas eram inéditas em livro, e mantêm no fundamental uma inquietante actualidade e uma contagiante comicidade, dentro do consagrado princípio segundo o qual 'ridendo castigat mores'".
Em comunicado, a Bertrand Editora felicita o autor por aquele que é “o primeiro [prémio] do seu extenso e bem-sucedido percurso literário”.
Rui Couceiro, Diretor Executivo da Bertrand Editora, partilhou nas redes sociais uma mensagem de parabéns destinada ao autor: “ (…) apesar de ter o privilégio de ser editor de MEC, sou também - desde muito novo, como muita gente - um incondicional fã deste genial escritor, que foi o primeiro influenciador português, bem antes de se falar em influenciadores, e que nunca tinha, muito injustamente, sido distinguido com um prémio literário. Para mim, era inconcebível - e já o tinha escrito - que alguém que, ao longo de mais de 40 anos, publicou tantos, tão bem escritos, tão originais e tão marcantes textos nunca tivesse - até hoje - recebido um prémio. Falo de crónicas que, como escrevi na contracapa de “As 100 Melhores Crónicas”, publicado pela Bertrand em 2020, foram fotocopiadas e coladas em cadernos ou roupeiros, motivaram telefonemas, discussões, namoros e até casamentos, vezes sem conta foram enviadas por e-mail e partilhadas nas redes sociais, por nos terem feito rir ou chorar - por, ao lê-las, termos sentido, como só MEC nos faz sentir, que “é mesmo isto”. Hoje, o júri do Grande Prémio de Crónica e Dispersos Literários da APE, que é patrocinado pela Câmara de Loulé, fez um pouco de justiça, ao distinguir Miguel Esteves Cardoso com um importante galardão, mas sobretudo ao atribuir-lhe, pela primeira vez, aos 67 anos, um prémio literário. MEC venceu pelo livro “Independente Demente”, publicado pela Bertrand Editora em novembro de 2022, e eu - mesmo com a mão a doer-me - não poderia estar mais feliz. Creio até que vibrei mais do que se o prémio me tivesse sido atribuído a mim. Parabéns, Miguel! Agora, venha o Camões!”
Alimentar o Amor
“Começar é fácil. Acabar é mais fácil ainda. Chega-se sempre à primeira frase, ao primeiro número da revista, ao primeiro mês de amor. Cada começo é uma mudança e o coração humano vicia-se em mudar. Vicia-se na novidade do arranque, do início, da inauguração, da primeira linha na página branca, da luz e do barulho das portas a abrir.
Começar é fácil. Acabar é mais fácil ainda. Por isso respeito cada vez menos estas actividades. Aprendi que o mais natural é criar e o mais difícil de tudo é continuar. A actividade que eu mais amo e respeito é a actividade de manter.
Em Portugal quase tudo se resume a começos e a encerramentos. Arranca-se com qualquer coisa, de qualquer maneira, com todo o aparato. À mínima comichão aparece uma «iniciativa», que depois não tem prosseguimento ou perseverança e cai no esquecimento. Nem damos pela morte.
É por isso que eu hoje respeito mais os continuadores que os criadores. Criadores não nos faltam. Chefes não nos faltam. Faltam-nos continuadores. Faltam-nos tenentes. Heróis não nos faltam. Faltam-nos guardiões.
É como no amor. A manutenção do amor exige um cuidado maior. Qualquer palerma se apaixona, mas é preciso paciência para fazer perdurar uma paixão. O esforço de fazer continuar no tempo coisas que se julgam boas — sejam amores ou tradições, monumentos ou amizades — é o que distingue os seres humanos. O nascimento e a morte não têm valor — são os fados da animalidade. Procriar é bestial. O que é lindo é educar.
Estou um pouco farto de revolucionários. Sei do que falo porque eu próprio sou revolucionário. Como toda a gente. Mudo quando posso e, apesar dos meus princípios, não suporto a autoridade.
É tão fácil ser rebelde. Pica tão bem ser irreverente. Criar é tão giro. As pessoas adoram um gozão, um malcriado, um aventureiro. É o que eu sou. Estas crónicas provam-no. Mas queria que mostrassem também que não é isso que eu prezo e que não é só isso que eu sou.
Se eu fosse forte, seria um verdadeiro conservador. Mudar é um instinto animal. Conservar, porque vai contra a natureza, é que é humano. Gosto mais de quem desenterra do que de quem planta. Gosto mais do arqueólogo do que do arquitecto. Gosto de académicos, de coleccionadores, de bibliotecários, de antologistas, de jardineiros.
Percebo hoje a razão por que Auden disse que qualquer casamento duradoiro é mais apaixonante do que a mais acesa das paixões. Guardar é um trabalho custoso. As coisas têm uma tendência horrível para morrer. Salvá-las desse destino é a coisa mais bonita que se pode fazer. Haverá verbo mais bonito do que «salvaguardar»? É fácil uma pessoa bater com a porta, zangar-se e ir embora. O que é difícil é ficar. Isto ensinou-me o amor da minha vida, rapariga de esquerda, a mim, rapaz conservador. É por esta e por outras que eu lhe dedico este livro, que escrevi à sombra dela.
Preservar é defender a alma do ataque da matéria e da animalidade. Deixadas sozinhas, as coisas amarelecem, apodrecem e morrem. Não há nada mais fácil do que esquecer o que já não existe. Começar do zero, ao contrário do que sempre pretenderam todos os revolucionários do mundo, é gratuito. Faz com que não seja preciso estudar, aprender, respeitar, absorver, continuar. Criar é fácil. As obras de arte criam-se como as galinhas. O difícil é continuar".
Miguel Esteves Cardoso, in Independente Demente