Num mês dedicado à preservação dos oceanos, quisemos saber como é um dia na vida da bióloga marinha - e autora do livro Plasticus Maritimus - Ana Pêgo. Anda daí!
Que tarefas fazem parte do dia-a-dia de uma bióloga marinha?
Embora as pessoas pensem que os biólogos marinhos estão o tempo todo na praia ou no mar, muito tempo é passado no laboratório e em frente ao computador. Trabalhei vários anos em centros de investigação onde participava em “saídas de campo” e ia embarcada em traineiras de pesca e navios de investigação. Em 2012, comecei a dedicar-me a projetos de educação ambiental. Tenho trabalhado de forma independente e em colaboração com museus, escolas, bibliotecas, municípios e empresas. Nos últimos anos, o foco do meu trabalho tem sido a poluição por plástico e, por isso, a ida à praia inclui recolha de material para oficinas e exposições que, posteriormente, tenho de lavar, secar e organizar. Em casa, tenho de preparar oficinas, palestras e exposições, lavar e organizar os materiais, pensar, criar, testar, fotografar... E, claro, também passo muito tempo em frente ao computador a preparar palestras, trabalhos, a escrever e, como em qualquer profissão, a tratar de burocracias chatas.
Qual a melhor parte desta profissão? E quais os maiores desafios?
A melhor parte de todas é, evidentemente, a de estar na praia ou a mergulhar. É um misto de trabalho e lazer, porque quando fazemos aquilo de que mais gostamos não sentimos o peso da profissão. Mas, nos últimos anos, uma das coisas que mais tenho adorado fazer são as oficinas de verão Plasticus Maritimus. São semanas de ciência e arte para crianças e jovens, realizadas na SMUP (Parede). Gosto de contagiá-los com o gosto pelo mar. A expressão de espanto, quando olham por uma lupa de laboratório pela primeira vez e, ao fim da semana, é impagável assistir ao momento em que se apercebem de que aprenderam imenso sem dar por isso. Os maiores desafios são ter de ser eu a fazer tudo sozinha.
Que conselhos daria a uma criança que sonha seguir esta profissão?
Que deve seguir em frente! A Biologia é uma coisa maravilhosa e surpreendente. Nem sempre é um percurso fácil, mas quando se gosta muito, contornam-se obstáculos e dá muito prazer. Pessoalmente, não deixo de me surpreender com as maravilhas do oceano e dos seres que lá vivem. E gosto muito de passar os meus conhecimentos aos que me rodeiam, para que se deslumbrem como eu me deslumbro e compreendam a necessidade de proteger os oceanos.
Ao papel de bióloga marinha alia ainda o de autora, com a publicação, em 2018, do livro Plasticus Maritimus. O que a levou a aceitar este desafio e qual a principal mensagem que pretendia passar aos pequenos leitores?
Foi um convite irrecusável feito na altura certa. Eu já andava com a ideia de um dia escrever um livro, mas se não fosse este convite da editora Planeta Tangerina, provavelmente esse livro nunca teria visto a luz do dia. Ao percorrer as escolas do país, apercebia-me de que as pessoas estavam muito pouco informadas sobre a importância dos oceanos e, particularmente, sobre a questão da poluição por plástico. Isso deixa-me muito angustiada. Sem dúvida alguma, um livro permitiria chegar a muito mais gente, sem que eu tivesse de estar presente. A chave do sucesso foi ter escrito o livro com a Isabel Minhós Martins e com as ilustrações do Bernardo P. Carvalho.