Meena deu à luz um menino. Todos os seus filhos tinham nascido em casa, exceto o último, que nascera numa clínica, com o apoio de um programa de saúde materna da região. Algures no meio da conversa, Melinda Gates perguntou-lhe se gostaria de ter mais filhos e a resposta dela foi um redondo não, revelando o seu desespero em relação ao futuro daquela criança: «Só poderia ter alguma esperança no futuro deste bebé se a senhora o levasse consigo», confessou, enquanto pousava a mão na cabeça do menino de dois anos que, entretanto, se aproximara das duas. «Por favor, leve este também.»
Este foi um dos momentos mais marcantes na vida de Melinda, no meio das inúmeras viagens que fez pelo mundo, através da Fundação Bill & Melinda Gates, cuja missão é melhorar os cuidados de saúde e reduzir a pobreza extrema, a nível global. Na autobiografia Ganhar Asas e Voar, a filantropa e ativista relata o desespero que se vive nos países em desenvolvimento, onde ainda existem crianças a morrer com diarreia, enquanto nos Estados Unidos o problema é resolvido com uma simples medicação. Contudo, e perante histórias de vida como as de Meena, Melinda sempre acreditou que investir nas mulheres é, por si só, investir na sociedade.
Melinda Gates à conversa com algumas mulheres jovens que pertencem ao Young Women Self Help Group, numa das suas viagens ao Uttar Pradesh, na Índia (2016).
«Quando as mulheres gozam dos seus direitos, as famílias e as sociedades florescem. Essa associação parte de uma simples verdade: sempre que incluímos um grupo que foi excluído, beneficiamos toda a gente – e quando trabalhamos globalmente para incluir as mulheres e as raparigas, que perfazem metade de todas as populações, trabalhamos para benefício de todos os membros de todas as comunidades. A igualdade de género dá a força necessária a todos.» Melinda Gates, in Ganhar Asas e Voar
Em Ganhar Asas e Voar, Melinda Gates oferece um testemunho poderoso, revelando-nos pessoas que, nas suas cidades, dão tudo o que podem por uma sociedade mais saudável e igualitária. Relata episódios marcantes de mulheres que, em virtude da sua situação económica, não conseguem fazer mais por si e pelos filhos. Apresenta os dados, recolhidos ao longo de duas décadas de trabalho, relacionados com as causas que continuam a precisar mais da atenção internacional, desde o casamento infantil à falta de acesso das mulheres à educação e saúde. É uma chamada de atenção, mas é também um livro humanitário sobre uma mulher que, depois de aprender a voar, voltou atrás para garantir que outras mulheres, como ela, pudessem ganhar asas e levantar voo.