Depois do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, que celebramos a 10 de junho, chegam as festejos populares em honra de Santo António, o santo casamenteiro que Lisboa guarda no coração. Dia 13 de junho, assinala-se também o nascimento de um dos nomes maiores da poesia portuguesa: Fernando Pessoa, o poeta que era muitos (“Eu sou muitos”). Partilhamos um excerto do seu poema “Santo António”.
Nasci exactamente no teu dia —
Treze de Junho, quente de alegria,
Citadino, bucólico e humano,
Onde até esses cravos de papel
Que têm uma bandeira em pé quebrado
Sabem rir...
Santo dia profano
Cuja luz sabe a mel
Sobre o chão de bom vinho derramado!
Santo António, és portanto
O meu santo,
Se bem que nunca me pegasses
Teu franciscano sentir,
Católico, apostólico e romano.
(Reflecti.
Os cravos de papel creio que são
Mais propriamente, aqui,
Do dia de S. João...
Mas não vou escangalhar o que escrevi.
Que tem um poeta com a precisão?)
Adiante .... Ia eu dizendo, Santo António,
Que tu és o meu santo sem o ser.
Por isso o és a valer,
Que é essa a santidade boa,
A que fugiu deveras ao demónio.
És o santo das raparigas,
És o santo de Lisboa,
És o santo do povo.
Tens uma auréola de cantigas,
E então
Quanto ao teu coração —
Está sempre aberto lá o vinho novo.
(...)
Fernando Pessoa, excerto de “Santo António”
Fonte: Arquivo Pessoa