Esta é uma meditação sobre a minha própria infância. Talvez por ter estado em todas as grandes equações da minha vida, claramente na origem de tanto que usei na ficção, serve hoje para ponderar quem quis ser, quem sou, quem me imagino no futuro que me resta. — Valter Hugo Mãe
Em Contra Mim (Porto Editora), Valter Hugo Mãe revela-nos a sua interioridade, num registo introspetivo e profundamente íntimo e pessoal. A criança, sempre espantada e angustiada com o crescimento, o sentido da vida e a felicidade, deixa-nos entrar na sua infância, marcada por Angola e Paços de Ferreira, até encontrar o seu refúgio junto ao mar, nas Caxinas.
Escrito como um hino à pura maravilha que deveria ser a infância, este livro traz-nos um resgate da idade mais bela, pura e secreta, onde Valter descobriu o poder das palavras, que colecionava em caderninhos, e o mistério que os desenhos feitos com lápis-de-cor guardavam. As duas artes que não permitiram que abandonasse de vez a carteira da escola para se distrair com a solidão e as flores silvestres.
Esta é uma obra de uma sensibilidade absoluta — a que, de resto, o autor já nos habituou — , que nos amplia e conforta no desassossego de andarmos todos entre alguma tristeza a procurar saída.
Leia aqui os dois primeiros capítulos.

Os poucos livros que existiam na nossa casa eram invariavelmente manuais, como guias para monumentos ou dicionários, assuntos de consulta para uma ciência rigorosa dos fenómenos e das evidências do mundo. Eram destinados a adultos profundos e muito cultos. Não proporcionavam diversão e não explicavam nada aos interesses das crianças. Os poucos livros que existiam em nossa casa eram circunspectos, especialistas num hermetismo que se tornava agreste para a infância. As crianças não tinham livros. Eu, que era um rapaz impreciso, no entanto, pensava sobre eles. — Valter Hugo Mãe, in Contra mim