Os portugueses Jacinto Lucas Pires e Samuel F. Pimenta figuram entre cerca de 300 escritores e artistas que assinaram uma carta aberta ao Presidente do Ruanda, Paul Kagame, expressando preocupação com a atual situação do poeta ruandês Innocent Bahati. “Nós, os escritores, poetas e artistas abaixo-assinados de África e de todo o mundo, gostaríamos de expressar em conjunto a nossa grande preocupação com a vida e o paradeiro do poeta ruandês Innocent Bahati, desaparecido desde 7 de fevereiro de 2021”, lê-se na carta aberta, uma iniciativa do PEN International.
Innocent Bahati “é um poeta conhecido que, antes de desaparecer, publicou poesia no YouTube e Facebook e se apresentou regularmente em eventos de poesia no Ruanda” e “na época de seu desaparecimento, era professor na Green Hills Academy em Kigali”, explicam os 292 subscritores da carta aberta, alguns laureados com o Nobel da Literatura, como o turco Orhan Pamuk e o sul-africano J. M. Coetzee e o indiano Salman Rushdie. “Escrevemos em apoio aos apelos anteriores do PEN International, associação mundial de escritores e outras organizações de liberdade de expressão, para o instar a intervir no caso de Bahati e no interesse do seu direito à vida, liberdade e bem-estar”, escrevem os signatários a Paul Kagame.
Innocent Bahati foi visto pela última vez num hotel no distrito de Nyanza, na província do Sul, onde teria ido encontrar alguém com quem havia falado ao telefone anteriormente. “Quando Bahati não regressou a Kigali como esperado, pessoas próximas dele tentaram contactá-lo, mas sem sucesso. Os telefones de Bahati pareciam estar desligados e assim permaneceram desde então”. Tendo passado já um ano sobre o desaparecimento e ainda sem notícias sobre o paradeiro e o estado em que Innocent Bahati se encontra, os cossignatários pedem a Paul Kagame uma “ação urgente”. “Notamos, com preocupação, que as autoridades ruandesas ainda não divulgaram qualquer progresso ou resultado das investigações sobre o seu caso. Como escritores, poetas e artistas, temos razões legítimas para acreditar que o desaparecimento de Innocent Bahati está relacionado com a sua poesia e a sua expressão crítica sobre questões que afetam a sociedade ruandesa”, acrescentam. “Estamos cientes de relatos de que ele também desapareceu em 2017 depois de publicar um comentário crítico no Facebook, apenas para reaparecer sob custódia policial após vários dias. Apesar de não ter sido acusado de nenhum crime, ficou detido três meses sem julgamento e só foi libertado após uma ordem judicial”.
A Constituição do Ruanda, recordam, “garante a liberdade de expressão, com garantias suficientes contra o uso arbitrário do poder do Estado para suprimir esse direito”. “O Ruanda também é obrigado, sob as leis e padrões internacionais de direitos humanos, a garantir o direito à liberdade de expressão, incluindo a liberdade artística”, salientam. A carta aberta termina com a certeza de que “a poesia não é crime”.
Fonte: Lusa