Pela primeira vez na história do prémio Pulitzer, dois romances foram premiados na categoria ficção: Trust (Confiança), de Hernán Díaz, e Demon Copperhead, de Barbara Kingsolver.
Hernán Díaz recebeu a notícia de que tinha vencido o Pulitzer durante um almoço (de frango e waffles), na Carolina do Sul. Saiu do restaurante e não conseguiu conter as lágrimas. Três senhoras mais velhas acercaram-se, tentando saber se estava bem. Partilhou com elas a notícia e abraçaram-se os quatro.
Na Nova Iorque dos ruidosos e efervescentes anos de 1920, todos conhecem os nomes de Benjamin e Helen Rask. Ele, um magnata de Wall Street; ela, a filha de excêntricos aristocratas. Juntos ascenderam ao topo de um mundo de aparente riqueza infinita, mesmo quando os excessos da especulação fazem ruir tudo à sua volta. Mas a que custo se construiu esta fortuna? Este é o ponto de partida de Confiança, que o The Post, descreveu como um “quebracabeças elegante e irresistível" e que o júri do Pulitzer definiu como "uma análise complexa do amor e do poder num país onde o capitalismo é rei".
De ascendência argentina, Díaz — que confessou que escrever é um "ato monstruoso" pela exigência de uma metamorfose — publicou o seu primeiro romance, In the Distance (Ao Longe), em 2017. A obra, uma releitura do género western, foi considerada pelo Il Gionale (Itália) "um livro anómalo, um meteorito na literatura americana", tendo integrado a lista de finalistas do Pulitzer.
Confiança está a ser adaptado para uma série de televisão pela HBO e já arrecadou o Prémio Kirkus de ficção, em 2022, foi selecionado para o Prémio Booker 2022 e integrou as listas dos melhores livros do ano, para publicações como The New York Times, The Washington Post, TIME ou The New Yorker.
“Para mim o que é tão comovente na literatura é a união entre significado e beleza que não encontramos noutro lugar. Podemos encontrar beleza no traço, no som, no gesto, e pode não haver um sentido, pode ser um ahhh, um momento de beleza. Mas na literatura o calafrio da beleza vem sempre do significado, e isso é incrível. É atrás disso que ando sempre.”
— HERNÁN DÍAZ, Público, fevereiro 2023
Inspirado em David Copperfield, de Charles Dickens, Demon Copperhead, de Barbara Kingsolver, explora a história de Demon — apelidado de Copperhead graças aos seus cabelos ruivos —, um jovem que, apesar de ter nascido rodeado de pobreza, possui um "talento feroz para a sobrevivência". Acompanhamos-lhe as experiências, o crescimento, os vícios, o amor e as aprendizagens. Na narrativa, encontramos todos os ecos de Dickens: a mãe falível e infantil, propensa a abusos; o pai falecido; o namorado disciplinador transformado num padrasto impiedoso; as probabilidades desfavoráveis contra as quais nenhuma criança tem, à partida, hipótese.
David Copperfield questiona-se se acabará por ser o herói da sua própria vida. Em Demon Copperhead — cuja tradução para português chegará às livrarias em novembro —, a questão tem outra tónica: afinal, o que é o heroísmo? Muitas vezes, um herói é aquele que (apenas) sobrevive contra todas as probabilidades.
A escritora Louise Minchin descreveu Demon Copperhead como um "livro imponente, profundamente poderoso e significativo”, acrescentando que o romance "tem um impacto emocional triunfante e resistirá ao teste do tempo".
No The Guardian, a escritora Elizabeth Lowry escreveu que Demon Copperhead parece, em muitos aspetos, o livro que Kingsolver nasceu para escrever. O idealismo e a preocupação com a justiça social, características da visão do mundo que Kingsolver apresenta, encontram um contraponto natural na apaixonada crítica social de Dickens. Apesar de os hábitos e a sociedade terem mudado muito desde meados do século XIX, a feroz crítica à pobreza institucional e aos seus efeitos perver-sos nas crianças é tão pertinente hoje como era nessa época.
“O que é maravilhoso é que podias começar a vida com nada, terminar com nada, e perder tanto pelo meio”
— BARBARA KINGSOLVER, Demon Copperhead
O pai de Barbara era médico e a sua família esteve em diversos países (incluindo no Congo), acabando sempre por regressar a casa, ao Kentucky, conforme refere a sua autobiografia. Essas viagens acabariam por marcar o seu trabalho. O seu romance The Poisonwood Bible, sobre uma família missionária que se muda para a República Democrática do Congo, na década de 50, foi nomeado para o Pulitzer em 1999. Demon Copperhead valeu também a Kingsolver o Women’s Prize for Fiction 2023, tornando-se a primeira pessoa a vencer o prémio duas vezes, desde que este foi instituído, há 28 anos.