Desafiámos os autores a partilharem connosco algumas leituras, levando até aos leitores o poder terapêutico da literatura. Ondjaki respondeu ao nosso desafio e leu um excerto de "O ano da morte de Ricardo Reis", de José Saramago.
Nascido em 1977, Ondjaki é um romancista e poeta, conhecido pela forma como brinca com a linguagem escrita, num ato que o mesmo apelida de "deportuguesar". Em 2000, recebeu uma menção honrosa no prémio António Jacinto (Angola) pelo livro de poesia Acto Sanguíneo e, em 2013, com Os Transparentes, foi o vencedor do Prémio José Saramago - prémio que dedicou ao país que o viu nascer, Angola. Para ultrapassar a situação que vivemos atualmente, o autor recomenda o recolhimento - com sonhos, com familiares, com livros. O livro que escolheu partilhar é uma das mais importantes obras do Nobel da Literatura português, José Saramago.
Agora, esperar. Ler as gazetas, neste primeiro dia também as da tarde, reler, medir, ponderar e corrigir desde, o princípio as odes, retomar o labirinto e o deus dele, olhar da janela o céu, ouvir falarem na escada a vizinha do primeiro andar e a vizinha do terceiro andar, perceber que as agudas vozes lhe são destinadas, dormir, dormitar e acordar, sair só para o almoço, de fugida, ali pertinho, numa casa de pasto do Calhariz, tornar aos jornais já lidos, às odes arrefecidas, às seis hipóteses de desenvolvimento do quadragésimo nono lance, passar em frente do espelho, voltar atrás para saber se ainda lá está quem passou, decidir que este silêncio é insuportável sem uma nota de música (...)
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