Luiz Pacheco nasceu a 7 de maio de 1925, em Lisboa e desde cedo manifestou talento para a escrita. Chegou a frequentar o curso de Românicas em Lisboa, que abandonou para trabalhar na Inspeção-Geral dos Espetáculos, de onde se demitiu ao fim de pouco tempo. Sem grandes meios regulares de subsistência para sustentar uma família crescente, chegou a viver de esmolas ou donativos, hospedando-se em quartos alugados. Aos 25 anos fundou a Contraponto, editora onde publicou autores como José Cardoso Pires, Mário Cesariny, Natália Correia ou Herberto Hélder. Faleceu em janeiro de 2008. Recordamo-lo aqui, com um excerto de uma entrevista - conduzida por Carlos Quevedo e Rui Zink - à revista Kapa, em julho de 1992.
Luiz Pacheco, escritor, sofre de asma brônquica. Calvície precoce. Fratura do úmero devido a tentativa de suicídio na Av. De Berna. Queda de dentes natural quase total. Efizema pulmonar bilateral diagnosticado em 1958, obrigado a uso permanente de botija de oxigénio, à noite e ao levantar. Hérnias inquinais não operadas com uso de funda dupla. Hipersensibilidade ao álcool, o que o conduziu a uma fraudulenta fama de alcoólico incorrigível. Tratamento de desintoxicação no Centro António Flores, ambulatório e dois internamentos. Miopia e astigmatismo, quase cegueira. Bissexual assumido. Leve surdez do ouvido esquerdo. Andropausa total. Três mulheres reconhecidas.
Kapa: Há quem diga que só começou a escrever nos anos 60. É verdade?
Luiz Pacheco: Nos anos 60? Não! Eu comecei a escrever até bastante novo; agora publicaram um texto meu escrito com 20 anos. Não, nos anos 60 já quase não escrevia.
Agora já só faz reedições? Passou à história?
É muito difícil, no meu estado, escrever capazmente. Um escritor é como um boxeur ou como um futebolista: tem prazo de validade. Há obras que se fazem em ascensão. O Beethoven, por exemplo, vai sempre em ascensão – a 9ª sinfonia, depois seria a 10ª, depois seria a 11ª, se ele aguentasse mais um tempo. E há obras que se fazem um bocadinho datadas. Insistir depois disso seria estúpido. O que me distrai agora é gravar. Mas como não tenho luz, até gravar é difícil. E as pilhas são um balúrdio, as cassetes são um balúrdio, um tipo está a gravar às escuras, de repente já está a gravar por cima de outra coisa… De maneira que agora estou parado, estou reformado. Eu escrevo: escriba/reformado, ou reformado/escriba, tanto faz. Não estou à espera de fazer nada de especial.
Eu pensava que a diferença entre o futebol ou o boxe e a escrita é que eles eram obrigados a reformar-se aos 30 anos e nós podíamos continuar até à vitória final…
Você está a assistir àquilo que eu chamo escritor/escriba avençado: é um tipo que tem que fornecer à editora todos os anos um original e que portanto vai lá ao fundo da gaveta, sai-lhe a palha e faz um original. Você não acha que o Vergílio Ferreira está já reformado há muito tempo?
Sim.
Então porque é que publica? É uma questão de taco. Uma questão também de, enfim, sei lá, de hábitos, de vaidade, de poder. O Saramago se tivesse ficado pelo Memorial do Convento não teria ficado melhor? Agora até publicaram os textos macacos que ele escrevia no Diário de Notícias, no Diário de Lisboa, as opiniões que o DL teve, Basta de Censura, uns poemas que são uma calamidade. Contaram-me que agora (não sei se é verdade se é mentira) a Caminho recebeu uma encomenda de Angola de um ministro a pedir 500 exemplares do Manual de Caligrafia e Pintura, porque o homem supôs que era um manual mesmo, uma maneira de ensinar a escrever a pretalhada, em vez de escreverem gatafunhos. Sabia desta?
Não, não conhecia essa anedota.
Não passa de uma anedota, não é? A má-língua aqui é muito grande, e o Saramago hoje tem 99% das invejas nacionais de todos os escritores, porque de facto ele conseguiu uma posição que mais ninguém tem, nem mesmo o Fernando Namora se fosse vivo.
O seu filho Paulo é encarregado do seu espólio?
Sim, o Paulo está encarregado e tenho a impressão que vai fazer uma grande fogueira aí em casa, ali na varanda ou no guarda-tudo, ele tem uma procuração legal para me representar junto da SPA; e esta edição já é obra dele, esta edição já pode considerar-se póstuma. Eu vi esta edição assim como ela está agora. Revi com muito cuidado, detesto gralhas, fiz uma ligeira limpeza do género de umas exclamações, umas reticências. Mas o texto está aí integralmente e – há mal em dizer isto? – o que era giro não era publicar isto agora, o que era giro era publicar isto como ele foi publicado em 1970, com a PIDE, com censura, com repressão, isso é que foi giro, depois uma actualização em 73, 72/73, três mil exemplares. Foi debaixo da repressão e nessa altura quem escrevesse isto em Portugal, não havia ninguém, que eu saiba não houve ninguém, parece que há uma coisa do Costa Ferreira, o Costa Ferreira em 68 publicou um texto assumindo a sua homossexualidade, que no Libertino nem está assumido, não é assumida, não se passa nada. Sexualmente falando, bem espremido, o Libertino é uma «nega» pegada, são sopas e mais sopas.
Comunidade foi muito depois de Libertino?
Comunidade é posterior. O Libertino foi escrito quando eu estava com a Maria do Carmo e a Comunidade foi escrita quando eu já vivia com a Maria Irene, aqui em Setúbal. Não foi escrita em Braga. Separa a Comunidade cinco anos: outra mulher, outra situação. Que me leva a um texto para mim falhado, porque aquilo queria ser um texto ofensivo e não consegui.
E porque queria fazer um texto ofensivo?
Era para mostrar que era possível a felicidade com as condições materiais mínimas. Queria mostrar àqueles senhores, tipo Natália Correia, que eles não são mais felizes do que um casal que se dá bem na cama e que tem os filhos à volta e que está a progredir. E depois há o caso contrário. Eu tinha um texto que era o anti-comunidade, que não acabei: O Caso do Bife Voador, que é a mostrar o desagregar da comunidade. Por isso é que de repente aparece o sete e meio, a rapariga (era a mãe deste) tinha 17 anos, já tinha dois filhos, estava a criar dois sobrinhos, os tais da Maria do Carmo, que era irmã dela, e de repente achou um rapazinho que vivia lá em casa. Eu estava a ver aquilo há que tempos mas fui para ao hospital e ela à cama do outro.
Que pensa dos novos escritores-jornalistas?
O Fernando Dacosta… Nunca li nada do gajo, a não ser umas crónicas bem feitas, bem esgalhadas. Agora os livros não li, e ele tem uma pretensão… Agora esta Pedrosa é uma estúpida. Conhecem a Inês Pedrosa?
Mal.
Deve ser muito estúpida. Li umas coisas dela horrorosas, completamente idiotas. É claro que essa malta se protege uns aos outros… É uma máfia. É uma geração que está a avançar, e portanto protegem-se.
Mas na sua época também havia máfias, não?
Aí é que está. A minha geração, o Cesariny, o Virgílio Martinho, o António Luís Forte, eu, o Manuel de Lima, o Manuel de Castro…
O Gonzalez…
Não. Isso já é miséria… Não é por ser mais novo, o Gonzalez é mesmo uma miséria. Não, a nossa geração era muito agressiva, mazinha. Não havia panelinhas… E tanto que nos zangávamos todos uns com os outros. O Cesariny e o Lima de repente detestavam-se. E o António Maria Lisboa zangou-se, o Mário Henrique Leiria zangou-se… Porque essa geração, a do Café Gelo, éramos muito maus uns para os outros. Dizíamos nas caras uns dos outros, escrevíamos coisa uns contra os outros…
Em que momento é que se zangou com o Cardoso Pires?
Começou muito cedo. Ele era um tipo muito consciencioso a escrever e mostrava-me sempre primeiro. Um dia ele estava a ler-me um texto e eu mostrei-me desinteressado, e ele disse: «Tu não estás a ligar nenhuma!» E eu respondi: «Não estou, porque não estou a gostar.» Ficou todo chateado. E depois ele chegou-se muito aos comunistas, para ter apoios, para ter público… Este último livro o Alexandra Alpha já nem li, e a Balada da Praia dos Cães é um disparate. Há um livrinho do cabo, um livrinho de memórias, bem não tem valor literário, mas é um documento muito mais giro que a Balada da Praia dos Cães.
E como surgiu a ideia de fazer um livro a partir de um conjunto de cartas?
No tempo do fascismo, a epistolografia era considerada um género menor, mas como não havia censura às cartas, eu gostava muito, porque não tinha medo que mas abrissem. Escrevia tudo o que me apetecia. O Pacheco vs. Cesariny é um documento para quem quiser estudar uma certa época literária portuguesa. Literária e não só…
Mas as pessoas não se chatearam de lhes publicar as cartas?
Alguns sim. Mas eu não podia publicar as minhas cartas e as dos outros sem pôr os nomes. Isso sempre foi um hábito meu, dar o nome aos bois. Depois um dia apareceu o Listopad a dizer que nunca mais me ia escrever nada, porque eu podia publicar as cartas dele, e eu respondi-lhe que estivesse descansado, as cartas dele não tinham nenhum interesse literário. Só me interessava quando tinham um cheque lá dentro. Também, nunca eram mais de 100 ou 200 paus…
Viver à margem foi…
Ninguém quer marginalizar-se, ninguém quer viver mal, ninguém quer passar mal. Só uma pessoa com aberrações mentais, um louco.
Você acha que não teve outra alternativa?
Sim, não tinha outra alternativa. Sim, teria, agora não vou dizer que tinha ou não tinha, agora já não vou a tempo. Mas há uma descida económica, há um sair do carreirismo literário, e há também um empurrão para isso. Por exemplo, quando eu publiquei o Vergílio Ferreira, publiquei uns contos dele, chamada a fase sangrenta. Os surrealistas ficaram desesperados comigo, porque tinham-se convencido que eu era o editor só deles. Quando eu publiquei o Herberto Hélder, o Cesariny ficou desesperado comigo, porque estava convencido que eu era editor só para ele. Ora, francamente, um gajo se quer ser editor e tem uma noção estética do que está a fazer, estética e ideológica e política e de intervenção, não vai ficar limitado a um único autor, até porque esse único autor está a inflingir uma zona que não lhe interessa. Fui buscar o Herberto Hélder, fui buscar o Vergílio Ferreira, fui buscar outros autores, por isso é que a minha editora se chamava Contraponto. Eu levei meses a achar o nome de Contraponto, meses. Não tenho assim uma grande formação musical, mas ainda sei o que é o contraponto na música.
E filhos, porquê tantos?
Assim como deve existir um direito ao aborto, para a mulher que não quer ter filhos, ou porque é violada ou porque vive mal, deve haver consideração pelo direito à criação. Por exemplo, eu queria ter oito filhos; então o estado tem que me dar condições para ter oito filhos. Estas casas hoje são feitas de propósito para um casal com dois filhos no máximo. Na China um casal tem um filho tem abonos, tem dois filhos cortam-lhe tudo. Então e se tem três? Isso ainda é pior, vai para à cadeia. Mas se os chineses quisessem de facto fazer uma invasão em cheio, diziam «façam à vontade». O direito ao aborto está inteiramente certo, mas tem que se ter o equivalente, que é o direito à procriação. Ter direito ao aborto, certo, cada um é dono do seu corpo, faz do seu corpo o que quiser, mas também pode ter gosto em ter filhos.
Quais são as coisas que lhe importam mesmo na vida?
Chegar aos 100 anos (risos). Não, o que me importa é que o bebé cresça, que o meu filho tire o curso. Já são interesses que me são exteriores. Gostava de publicar, sem cagança nenhuma, gostava de publicar um livro, ainda que não fossem só estas repetições, estas reedições. Tenho material para isso, mas precisava também de ter um bocadinho de condições. Não é com os 50 contos que a SEC me que eu posso fazer isso. Estes 50 contos o que me tiram é a necessidade de fazer isso. Aqui nesta reedição de O Libertino não vou receber quase dinheiro nenhum. Vocês estão ainda na idade de terem grandes ambições. Mas eu já não tenho idade de ter essas ambições. As minhas são não ter muitas dores, não me rebentar a hérnia. Já sei que qualquer dia, se não me rebentar a hérnia, cai-me um tijolo em cima e fico em papas. Há também um certo desgosto da vida. Agora, enquanto eu tiver, de facto, um x mensal em que possa dar uma ajuda aqui ao Paulo, comprar em Setúbal um peixe fresco, uma fruta, uma oferta, meter ali no açucareiro uns 5 ou 10 contos, então...
Fonte: Revista Kapa