Entrevista | António Manuel Venda

Por: Bertrand Livreiros a 2020-04-05 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

António Manuel Venda

António Manuel Venda

Nasceu em Monchique, no sul de Portugal, em 1968. Publicou cerca de uma dezena e meia de livros de ficção e alguns títulos de outros géneros, nomeadamente crónica, poesia e investigação. Recebeu prémios literários de várias instituições: Centro Nacional de Cultura, Câmara Municipal de Almada, Instituto Abel Salazar, Secretaria de Estado da Cultura e Sociedade Portuguesa de Autores. Já houve quem escrevesse que «nos habituámos a ir descobrindo os seus livros como se fôssemos exploradores em busca da última mina perdida da escrita».

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Depois de vários livros de ficção que encantaram os leitores, António Manuel Venda estreou-se no mundo da poesia com O Cão Atravessa a Cidade. Conversámos com o autor, que nos brindou com a leitura de um dos poemas do seu novo livro.

 


 

O Cão Atravessa a Cidade é uma descoberta da poesia ou apenas a revelação desta sua face ao público?

Talvez se possa dizer que se trata das duas coisas. Eu escrevi os poemas do livro nos últimos quatro anos, ou antes, foi durante esse tempo que me aconteceram diversas coisas que levaram a que tomasse algumas notas. O que eu descobri, mais recentemente, é que tinha um conjunto de pequenas histórias, muito coladas a mim, aos meus animais, às minhas plantas, até às divindades mais próximas de mim. E esse conjunto, quase sempre a partir de imagens muito concretas da minha memória e até da minha imaginação, nunca poderia acabar em prosa. Era algo para eu contar num outro ritmo, e também para viver num outro ritmo. Dando a conhecer este trabalho agora, é obviamente uma revelação para quem possa interessar-se pelo que escrevo – tenho exemplos de pessoas minhas conhecidas que ficaram muito surpreendidas. E atrevendo-me eu a dar a forma definitiva às notas que tinha, não poderei dizer que não foi uma descoberta. Difícil de ultrapassar, no entanto, porque tive muita relutância em publicar os poemas num livro, inclusive em dá-los a conhecer de qualquer outra forma.

 

Era algo para eu contar num outro ritmo, e também para viver num outro ritmo. Dando a conhecer este trabalho agora, é obviamente uma revelação para quem possa interessar-se pelo que escrevo – tenho exemplos de pessoas minhas conhecidas que ficaram muito surpreendidas. E atrevendo-me eu a dar a forma definitiva às notas que tinha, não poderei dizer que não foi uma descoberta.

 

Em 2019, a On y va inaugurou uma coleção de poesia. Considera que a edição e revisão dos livros que a integram potenciaram a sua aproximação deste género literário?

A colecção de poesia da On y va surgiu por acaso, na sequência da descoberta de um original intitulado O Perfume da Esteva, que se tornou num livro muito especial. A colecção não me fez aproximar, mas terá mudado alguma coisa em mim. Isso certamente. Inclusive, nos últimos meses passei dezenas de horas em pesquisa para a recuperação de um conjunto de poemas de um autor por quem tenho uma profunda admiração. O trabalho acabará por ser um novo título da colecção, e creio que com o avançar desse trabalho ganhei um pouco mais de coragem para publicar o meu próprio livro de poesia, que tinha vindo a preparar sem saber o que fazer dele. Lembro-me de ter redescoberto poemas desse autor que continuavam na minha memória passados mais de trinta anos, lembro-me de vê-los em papel de jornal, amarelecido, e não conseguia deixar de maravilhar-me com cada um que me aparecia. Talvez tenha sido mais por aí… Mas eu sempre tive os meus heróis na poesia, da mesma forma que sempre tive na prosa. Um deles, de quem recentemente foi publicado um livro com o conjunto da sua obra, acabou por causar uma das minhas grandes surpresas na literatura: em mais de quatrocentas páginas há apenas um poema que é dedicado a alguém, no caso a mim e a uma mulher que eu não conheço, tal como não conheço o autor, que também não conhece a mulher; a certa altura, ele escreve: «Nunca vos vi e não sei se se conhecem/ mas sei-nos colegas de um tempo ideal/ onde no quintal estivesse o sol de outro dia ameno/ ou então o vento,/ arrebatador e sossegado, esse ideólogo/ de sermos os três amigos».

 

Na contracapa do livro, podemos ler que este «reúne vinte e cinco poemas que são, ao mesmo tempo, vinte e cinco histórias». Neste sentido, quão diferente foi o processo de criação destes poemas comparativamente às histórias em prosa que costuma escrever?

Eu nunca tomei notas para os meus livros anteriores, de prosa. Romances, contos, crónicas, todos foram escritos de forma espontânea, a partir da minha memória e sobretudo da minha imaginação. Os poemas, como disse há pouco, resultaram de notas que tomei. Ao olhar para elas, de cada vez que o fiz, sempre me pareceu que poderiam tomar a forma de poemas. Percebo que quase sempre contam uma história, mas nunca achei possível que deles eu partisse para um relato mais ou menos longo. Nem eu queria, porque as notas que tinha já encerravam nelas próprias um ritmo que me surpreendeu, e que quis explorar demoradamente, a cada linha, como se fosse preciso uma enorme paciência até encontrar o que eu desejava e por vezes nem sabia, ou nem imaginava.

 

Há expressões e ideias a que recorre ao longo do livro, como é o caso da «serra dos dinossauros», também referida como «a mais alta da minha imaginação». Tendo em conta que o António é natural da serra de Monchique, podemos ler este eco como a busca de conforto no meio do desconhecido que (ainda) é a escrita de poesia?

Não. A serra dos dinossauros é a serra dos dois dinossauros adormecidos, de que falo em alguns dos livros de prosa que publiquei. É a serra onde nasci. Observando-a de longe, sempre vi as suas duas montanhas, a Fóia, mais alta, e a Picota, um pouco menor, com a forma de dois dinossauros deitados, a dormir, tranquilos. Eu abreviei o nome nos poemas, chamei-lhe apenas serra dos dinossauros, como parte de uma geografia que consigo imaginar a partir daí, com coisas como o farol que no ponto mais alto guia os aviões que vão para o aeroporto junto à ria, ou vêm de lá. Eu falo de imaginação, de ser a serra mais alta dessa mesma imaginação, porque boa parte do meu tempo prefiro viver nesse mundo, mesmo que tenha os pés quase sempre a tocarem no outro, o de todos nós. Fora da imaginação, gostava que a serra da zona de Monchique, que não tem nome, um dia ganhasse um e passasse a chamar-se Serra dos Dois Dinossauros Adormecidos. É um pouco como o estádio do Benfica, que de certa forma também não tem nome, embora haja quem diga Estádio da Luz: na verdade, chama-se Estádio do Sport Lisboa e Benfica, coisa que acaba por ser uma redundância, porque independentemente do nome seria sempre do Benfica; imagine-se que Lisboa se chamava Capital de Portugal…

 

Eu falo de imaginação, de ser a serra mais alta dessa mesma imaginação, porque boa parte do meu tempo prefiro viver nesse mundo, mesmo que tenha os pés quase sempre a tocarem no outro, o de todos nós.

 

De que forma é que a publicação de O Cão Atravessa a Cidade alterou a sua definição de poesia? 

Não creio que tenha alterado, aliás, a verdade é que eu não conheço uma definição. Continuo a ter os meus heróis e a descobrir outros. Tal como acontece na prosa.

 

Podemos esperar um próximo livro neste registo?

Podemos esperar, mesmo que nunca chegue. Mas se a vida me der tempo, o mais certo é que chegue. Ainda em relação ao livro O Cão Atravessa a Cidade, posso contar uma coisa. Antes de dar por terminado um só poema que fosse dos que surgem no livro, eu tive uma situação marcante da minha vida que me levou a escrever um poema. Tenho-o comigo, e o título dele será o do próximo livro de poesia, se vier a existir um próximo livro de poesia. Só depois de ter esse poema, muito especial, mesmo muito, só depois é que acabei por deter-me, com muita calma, sobre as minhas notas. Entretanto, recuperei um poema antigo para lhe juntar (o único que devia ser salvo dos meus tempos de estudante) e escrevi outro que me fez viajar no tempo de uma forma maravilhosamente surpreendente. Talvez isto não interesse nada como partilha, talvez se possa dizer que interessa apenas a mim. Na volta, acontece assim com tudo o que escrevo.
 

 

No vídeo abaixo, o autor dá-nos a conhecer um poema de O Cão Atravessa a Cidade:

 

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