Livro adentro

Por: Bertrand Livreiros a 2023-04-24 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

No mês em que se celebra o Dia Mundial do Livro, a Livraria Bertrand abraça um novo projeto que irá dar voz aos livros, através da leitura em voz alta de excertos das obras, interpretados por Ana Celeste Ferreira, cantora lírica e diseur.

"Livro adentro" irá tomar a forma de pequenos vídeos, que poderá encontrar nas nossas redes sociais e no site Bertrand.pt. As primeiras obras a ganhar voz serão A História de Uma Serva, de Margaret Atwood e Persépolis, de Marjane Satrapi, ambas editados pela Bertrand Editora. Todos os meses serão disponibilizados novos vídeos. A propósito do lançamento desta iniciativa, fomos conversar com Ana Celeste Ferreira.
 


 

De onde surgiu a ideia de dar voz aos livros? 

Ana Celeste Ferreira — Já me tinha ocorrido diversas vezes criar uma rubrica de leitura em voz alta de alguns capítulos de livros, com o intuito de dar a conhecer algumas das obras que ocupam a minha estante de 5 estrelas. Sendo a performance de leitura em voz alta uma atividade que desenvolvo há 20 anos (um verdadeiro híbrido entre trabalho e lazer) e gostando eu tanto de ouvir audiolivros como de os gravar, imaginei o quão bom seria ouvir por alguém a ler-me um excerto de um livro que não conheço, proporcionando-me uma interpretação (sempre artística e pessoal, claro) do ambiente da história narrada e/ou do estilo do autor, um vislumbre do que me espera caso eu agarre naquele livro para o ler. Esta leitura em voz alta de excertos da obra é já usada amiúde para as apresentações presenciais de livros; por que não oferecer esta hipótese a quem busca que lhe apresentem um livro nos meios digitais? A Bertrand partilhou do meu entusiasmo, e deu vida a este projeto.

Como descreveria a sua relação emocional com os livros? 

Para mim os livros são, e sempre foram, uma forma de poder viver várias vidas numa só. Creio que todos concordamos que sim, “os livros são uma forma de viajar sem sair do sítio”, mas para mim não se ficam por aí: não vejo melhor forma de vivenciar situações que não vivi (e que, em alguns casos, preferirei definitivamente não viver…), de me envolver seriamente no pensamento de alguém que encara o mundo de outra forma, de prever e testar reações e respostas a determinadas circunstâncias, do que ler um livro. Teatro e música? Cinema e televisão? Experienciamos e vivemos imenso usufruindo de teatro, música, cinema ou artes plásticas, mas nada se compara ao estímulo imaginativo que retiramos da leitura, em que toda a descoberta da realidade vertida em palavras depende do desenvolvimento da capacidade imaginativa e criadora de quem lê.
 

Qual o papel da leitura em voz alta nesse estímulo imaginativo? 

Não tenho dúvidas de que a leitura em voz alta, que leva este labor imaginativo da leitura ainda mais além, estimula e desenvolve a ligação pensamento-voz, fortalece várias capacidades linguísticas (como exemplos, o incremento do vocabulário, da sintaxe e da compreensão geral de um texto) e intelectuais (como a atenção, a concentração e o pensamento crítico) e amplia as nossas capacidades expressivas e comunicativas, além de, obviamente, ginasticar o aparelho respiratório e fonatório, que tanta falta nos faz para tanta coisa essencial. Não consigo conceber uma mente criativa e crítica que não leia.
 

Considera que este formato irá despertar a curiosidade dos leitores em ler os livros? 

Os livros tiveram sempre o grande e nobre propósito de nos proporcionar “ouvir alguém falar”, ainda que esse alguém não estivesse fisicamente presente. Apresentar o livro neste formato último, que é o do som da palavra dita através da leitura em voz alta, poderá despertar nos futuros leitores uma curiosidade mais aguçada em relação ao livro e à experiência de o tomar como seu. O escritor Daniel Pennac resume bem esta promoção da leitura através da leitura em voz alta, afirmando que aquele “que lê em voz alta expõe-se totalmente aos olhos que o escutam. Se ele lê verdadeiramente, se nessa leitura coloca o seu saber dominando o seu prazer, se a leitura é um ato de simpatia tanto para com o auditório como para com o texto e o seu autor, se consegue dar a entender a necessidade de escrever acordando a nossa mais obscura necessidade de compreender, então os livros abrem-se por completo, e a multidão dos que se julgavam excluídos da leitura mergulham nela.” (in Como um Romance, Edições Asa).
 

Como se prepara para este trabalho? 

Preparar-me para a leitura em voz alta faz parte, no meu quotidiano profissional, deste grande prazer de ler, e envolve duas vertentes de preparação, a da voz e a do texto. São dois processos absolutamente fascinantes sobre os quais me debruço há duas décadas, e que aliam a minha formação académica no Canto Lírico à formação em Voz e Elocução e em Comunicação Social, à experiência em teatro e locução, e sobretudo à minha vertente de formadora de canto, de voz e de leitura em voz alta: nada como ter de ajudar outrem a utilizar melhor a sua voz e a preparar bem um texto para a leitura, para chegar facilmente à sistematização de métodos de trabalho que desenvolvam a técnica vocal e a compreensão e preparação performativa do texto. As formações de leitura em voz alta que oriento, seja de poesia, prosa ou de textos publicitários e institucionais, abordam sempre estas duas perspetivas de trabalho que uso para mim própria, a de trabalhar a eficiência vocal (respiração, colocação, projeção, articulação, entoação) e a de explorar a melhor preparação do texto para a leitura em voz alta, nomeadamente ao nível da expressividade emocional e comunicativa. O desafio final é sempre o da performance e comunicação, o de passar vocalmente a mensagem escrita, o de contar histórias, o que acaba por desenvolver também outras valências pessoais e sociais. Pennac apelava, na obra já referida, a esta missão da leitura em voz alta: “Venham soprar nos nossos livros. As palavras precisam de corpo. Os nossos livros precisam de ter vida.”

 

Este artigo foi publicado na Revista Somos Livros (edição abril 2023).

 

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