Entrevista | Johny Pitts "A música está em cada frase que escrevo.”

Por: Bertrand Livreiros a 2022-07-27 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Johny Pitts

Johny Pitts, nascido em Sheffield, no Reino Unido, de mãe europeia e pai afroamericano, é escritor, fotógrafo e jornalista. Trabalhou em televisão como escritor e apresentador para a MTV, Sky One, ITV, Channel 4, Discovery Channel e BBC. Recebeu diversos prémios pela sua investigação da identidade afro-europeia, entre os quais o Decibel Penguin Prize e o ENAR (European Network Agains Racism) Award. Coordena o jornal online Afropean.com, que pertence ao Guardian’s Africa Network, e colaborou com o escritor Caryl Philips num ensaio fotográfico sobre as comunidades imigrantes de Londres para a BBC e o Arts Council do Reino Unido.

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Afropeu
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Johny Pitts nasceu em Sheffield, no Reino Unido, de mãe europeia e pai afroamericano, é escritor, fotógrafo e jornalista. Trabalhou em televisão como escritor e apresentador para a MTV, Sky One, ITV, Channel 4, Discovery Channel e BBC. Recebeu diversos prémios pela sua investigação da identidade afro-europeia, entre os quais o Decibel Penguin Prize e o ENAR (European Network Agains Racism) Award. Coordena o jornal online Afropean.com, que pertence ao Guardian’s Africa Network, e colaborou com o escritor Caryl Philips num ensaio fotográfico sobre as comunidades imigrantes de Londres para a BBC e o Arts Council do Reino Unido.



Conversámos com ele a propósito de Afropeu, um livro que é uma viagem pelos locais do Velho Continente onde os europeus de ascendência africana jogam com obediências múltiplas e constroem novas identidades. Dessa viagem resulta um mapa alternativo, que nos leva da lisboeta Cova da Moura, com a sua economia clandestina, a Rinkeby, a zona de Estocolmo onde oitenta por cento da população é muçulmana. Johny Pitts visita também a Universidade Patrice Lumumba em Moscovo, onde os estudantes oeste-africanos continuam a aproveitar ao máximo as ligações com a URSS surgidas durante a Guerra Fria, e Clichy-sous-Bois em Paris, onde nasceram os motins de 2005. Seja qual for a geografia, são os afropeus os protagonistas da sua própria história.


Como surgiu a ideia de escrever o Afropeu?

Na altura da crise global financeira, em 2008, comecei a observar uma crescente desunião entra as pessoas com quem cresci. Aquele ano foi, de várias formas, uma tempestade perfeita: as bolsas de valores faliram, foi lançado o Facebook Beta, o Twitter começou a ganhar popularidade e o iPhone, com a tecnologia 3G, foi lançado, o que permitia que as pessoas começassem a andar com a internet para todo o lado. Eu não sabia, na altura, que estas seriam as razões, obviamente, mas quando olho para trás, 2008 foi o ano em que comecei a reunir os estudos preliminares para o Afropeu  - lancei o meu website dois anos mais tarde, em 2010. Como o multiculturalismo está tão ligado ao imperialismo / expansionismo ocidental e à globalização, apercebi-me que as pessoas começavam a atacar o sintoma – o multiculturalismo –, em vez do vírus, o capitalismo neoliberal. Por isso, tentei reunir estes fragmentos das minhas origens culturais, para reconciliar a Europa com o seu passado e com o seu multiculturalismo inerente. Essa foi, na realidade, a génese do livro.

 

 

O que gostaria que acontecesse, na mente dos leitores, após a leitura deste livro?

Eu quero que vejam a Europa com novos olhos, que parem de usar o termo “europeu” como um sinónimo para “branco” e que, verdadeiramente, entendam quão complexa é a história deste continente e que percebam que as pessoas negras “estão aqui” porque a Europa esteve “ali”. Só quando a Europa aceitar o seu legado colonial e observar, com clareza, a injustiça estrutural criada, que ainda persiste, é que poderemos criar em conjunto um futuro melhor.

 

“Eu quero que vejam a Europa com novos olhos, que parem de usar o termo “europeu” como um sinónimo para “branco””.

 

Visitou a Cova da Moura e no seu livro fala sobre os “moradores invisíveis” que, na sua opinião, são “um alerta para a Europa”

Eu vejo a Cova da Moura como – passo a citar o jornalista Doug Saunders – uma “cidade de chegada”. Existem muitos locais assim no interior das grandes cidades europeias, onde os imigrantes são obrigados a viver para se aproximarem o mais possível do mercado global, e porque muitas vezes oferecem a única rede de apoio a pessoas nestas condições. Vimos o que aconteceu nos motins franceses de 2005, quando estes locais são ignorados: eles rebentam! Mas devido às alterações climáticas, demográficas e desigualdades globais, em lugares como a Cova da Moura vejo o futuro em incubação. Se conseguirmos, coletivamente, ajudar estes locais a prosperar, descobriremos que cada geração se sente mais investida num futuro positivo para a Europa. Se permitirmos que estes locais apodreçam... bem, Deus nos ajude a todos.

 

“(…) em lugares como a Cova da Moura vejo o futuro em incubação.”

 

O que lhe parece que possa explicar ser-se racista no século XXI, após todas as lições dadas pela História?

As pessoas não querem abdicar do privilégio, não querem abdicar do poder e da hegemonia. Vivemos num sistema em que é demasiado fácil participar numa retórica antirracista: fazemos um tweet ou tornamos a nossa imagem de perfil negra, em solidariedade, no Facebook, mas muitas pessoas não estão realmente dispostas a abdicar de nada. Não estão dispostas a permitir que os negros ocupem posições de poder reais. O problema tem sido a forma como essas “lições dadas pela História” foram ensinadas e enquadradas; o racismo é visto como uma coisa que aconteceu na América; pessoas brancas ajudaram a acabar com a escravidão e agora tudo está bem. Até muito recentemente - e estou a falar deste século -, ainda houve pessoas brancas no Reino Unido a receberem apoios pela sua "perda de propriedade" durante o tráfico de escravos. O mesmo aconteceu em outros países europeus, como a Holanda, onde os escravos foram libertados e os seus proprietários receberam dinheiro para subsidiar a sua "perda de propriedade".  Todos os países têm a sua própria fraude de marketing, com algumas diferenças entre elas: em Portugal, existe o “lusotropicalismo”, como se os portugueses tivessem uma relação "especial e benevolente" com o povo que subjugaram. Nos Países Baixos, existe aquilo a que a estudiosa holandesa Gloria Wekker chama “Inocência Branca”; uma autoimagem holandesa baseada no liberalismo, que não vai além das memórias da Segunda Guerra Mundial.

 

“Vivemos num sistema em que é demasiado fácil participar numa retórica antirracista: fazemos um tweet ou tornamos a nossa imagem de perfil negra, em solidariedade, no Facebook, mas muitas pessoas não estão realmente dispostas a abdicar de nada.”

 

Afirma que ser antirracista implica necessariamente compromissos e ações. Consegue dar-nos alguns exemplos?

O colonialismo precisa de ser ensinado cuidadosamente, e sem mentiras, nas escolas. Acredito que precisam de ser feitas algumas correções, para nivelar a desigualdade estrutural em todos os níveis da sociedade. Precisamos de criar cidades que, no seu planeamento, encorajem o convívio intercultural e, a nível pessoal, precisamos de falar e, impreterivelmente, ouvir

 



 

Este livro mudou-o? Pode partilhar algum acontecimento especial que ocorreu durante a escrita do livro e que provavelmente nunca irá esquecer?

Visitar a Rússia teve um profundo impacto em mim. Foi como uma visão da Europa num universo paralelo. Foi bastante desconcertante quando fui seguido na rua por um skinhead. A Rússia tem um enorme problema neonazi e é por isso que a afirmação de Putin, de querer “desnazificar” a Ucrânia é tão ousada: ele deveria começar pela sua casa! 

Ao andar pelas ruas e ao visitar lugares como a Universidade Patrice Lumumba, em Moscovo, tive a sensação de futuro falhado. Apercebi-me que o Ocidente e o Oriente ainda lidam com tanta propaganda, resquícios da Guerra Fria, e que inventam estranhas e distorcidas ilusões um sobre o outro.

 

“Visitar a Rússia teve um profundo impacto em mim. Foi como uma visão da Europa num universo paralelo.”

 

Qual é a importância das fotografias nas histórias que conta? Concorda com os que dizem que uma fotografia vale mais do que mil palavras?

Eu não concordo com os que dizem que uma fotografia vale mais do que mil palavras. Uma fotografia funciona mais como um haiku, uma pequena quantidade de palavras, poéticas e atmosféricas, quando feita corretamente, que podemos sentir e interpretar. Com a não-ficção, muitas vezes, cada frase tem de formular algum tipo de argumento. O que me agrada ao incluir fotografias é que são ligeiramente mais ambíguas, dando ao leitor uma pausa na análise clara. E se feito com cuidado, podem gentilmente pincelar o texto com uma certa atmosfera.

 

Já está a trabalhar no seu próximo livro que, nas suas próprias palavras, irá “reconciliar gerações”. 

Bem, tudo o que posso dizer é que será uma viagem através dos escombros dos sonhos do século XX, do Pan-africanismo ao comunismo, do sonho americano ao futurismo japonês. Vou ver o que posso escavar dos escombros destes sonhos destruídos, para lhe juntar algum tipo de visão positiva do futuro no século XXI. As questões centrais do livro serão: o que aconteceu com o futuro? O que devemos fazer com o nosso passado? 

 

 

Quais são os seus autores preferidos? O que está a ler neste momento e como se descreve enquanto leitor?

Tento ler de forma mais ampla, e não apenas numa bolha. Leio frequentemente dois livros ao mesmo tempo; um livro de ficção, talvez, emparelhado com um texto sociológico. Neste momento, por exemplo, estou a reler Looks and Smiles, um livro de um autor de Sheffield chamado Barry Hines, cuja obra se tornou famosa devido à sua colaboração com o realizador Ken Loach. É o realismo social que realmente dá vida ao lugar onde cresci.
Também estou a ler um livro incrível, chamado Magnumb, do artista afroamericano Arthur Jafa. Acabei de ver o seu espetáculo em Luma, Arles, e fiquei impressionado com a forma como tira a noção de negritude da sua zona de conforto. Como sou anfitrião de uma exposição de livros para a BBC, hoje em dia tenho de ler bastante depressa, mas leio melhor quando leio no meu próprio ritmo. Não confio em pessoas que leem muito depressa, e normalmente acho que retenho muito mais informação de um livro se lhe der tempo e respeito.

 

“Não confio em pessoas que leem muito depressa, e normalmente acho que retenho muito mais informação de um livro se lhe der tempo e respeito.”

 

O seu pai era músico. Qual é o lugar e a importância da música na sua vida?

Penso que, tal como os velhos poetas do Harlem renascentista, que infundiram os ritmos do Jazz nas suas palavras, a música está em cada frase que escrevo. Mas eu sou da geração hip-hop, e fui um MC quando era mais jovem, por isso, é esse o som da minha literatura. Não que as palavras rimem, mas pode dizer-se que as minhas frases são assombradas pela cultura do hip-hop.

 

É escritor, fotógrafo e jornalista. Isto foi o que imaginou fazer quando perguntavam, em criança, “o que queres fazer quando fores crescido”?

Sempre me interessei pela escrita, tem sido a única constante na minha vida. A fotografia veio um pouco mais tarde, na minha adolescência. Têm, ambas, sido formas de expressão importantes para mim, para dar sentido à minha posição, e à da minha comunidade, enquanto ser humano de pele castanha a viver no ocidente. Nunca fui realmente encorajado pela escola a pensar em mim como criativo, ou como escritor, por isso, nunca disse que era isso que queria ser quando crescesse. Queria ser um jogador de futebol profissional ou, se isso falhasse, um fisioterapeuta de um clube de futebol profissional, para poder estar perto do jogo. Não fomos realmente encorajados a levar a vida da mente a sério.

 

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