Partilhamos consigo a segunda parte da entrevista a Alice Vieira, publicada na edição de Natal da revista Somos Livros. Se ainda não leu a primeira parte, descubra-a aqui.
“SOU MUITO, MUITO EXIGENTE. DEPOIS DE TERMINADOS OS LIVROS, E ANTES DE OS ENVIAR PARA A EDITORA, SE VOLTO A LER E PENSO ISTO NÃO ESTÁ MAL, MAS EU SOU CAPAZ DE FAZER MELHOR, COLOCO TUDO NO LIXO E COMEÇO DE NOVO.”
A sua energia nunca se esgota?
Não! Tenho uma grande energia; vou para toda a parte e ando sempre muito depressa. A minha neta mais nova, quando vai comigo e tem dificuldade em acompanhar-me, diz-me coisas como: “Espera aí! Julgas que eu tenho a tua idade?” (gargalhada), ou: “Quando chegares, escreve!” (gargalhada).
“EU ERA UMA NABA NESTAS COISAS, MAS AGORA É ZOOMS, SKYPES, VIDEOCHAMADAS. ISSO AJUDOU-ME A NÃO TER DEPRESSÕES.”
Depois do confinamento, passou a gravar vídeos, com textos lidos por si, para enviar aos seus amigos. A literatura pode salvar?
Faço muitos vídeos, para as escolas que me pedem, a falar sobre os meus livros. E também faço para amigos e envio, por exemplo, para os que estão deprimidos, coitadinhos. Escolho bem a história e o livro, para eles não ficarem ainda mais deprimidos (gargalhada).
Durante o confinamento, no dia do meu aniversário, aconteceu uma coisa muito engraçada: recebi uma chamada e não reconheci o número, mas ainda assim atendi. Era um senhor que me disse estar a ligar a pedido de uma prima minha, para me contar uma história. Ele é contador de histórias e contou-me uma história maravilhosa. Fiquei deslumbrada e pensei em fazer algo semelhante. As pessoas gostam muito de ouvir histórias.
Falemos da relação avó-neto que desenvolveu com o jornalista Nélson Mateus. Como nasceu a vossa amizade e em que momento perceberam que fazia sentido criarem o Diário de uma Avó e de um Neto Confinados em Casa?
Sabe que há pessoas que acreditam que ele é mesmo meu neto? (risos) Conhecemo-nos quando ele foi fazer umas reportagens à Sociedade Portuguesa de Autores e houve uma empatia imediata. Trocámos contactos, ele falou-me do projeto Retratos Contados e eu achei o projeto muito bonito. Durante o confinamento, liguei-lhe e disse: “Preciso de ter muita coisa a ocupar-me a cabeça. E se começássemos a fazer uma espécie de diário do nosso confinamento?” Ele achou boa ideia e decidimos fazer dois textos por semana, cada um, que começaram por ser publicados na minha página no Facebook. Aquilo foi lido por imensas pessoas e a minha editora achou boa ideia publicar. Agora vamos preparar o segundo volume.
Esse projeto, Retratos Contados, do qual o Nélson é mentor, que pretende ser uma espécie de Biblioteca de Avós, reunindo histórias e ensinamentos para transmitir às gerações mais jovens, faz lembrar uma iniciativa, a Biblioteca Humana, que nasceu na Dinamarca, em que, em vez de se sentarem a ler livros, as pessoas sentam-se a falar com um desconhecido e ficam a conhecer a sua história.
Há uns anos, fui convidada para trabalhar com crianças de Resistência, capital da província de El Chaco, na Argentina. É uma província miserável, onde existe apenas uma rua alcatroada. Mempo Giardinelli, um homem extraordinário, tem lá uma organização que une avós e netos: os avós contam histórias da Argentina aos netos e os netos contam histórias aos avós. Além disso, ele convida autores e escritores para trabalharem com os miúdos e para os motivarem a ler. No final do ano, há uma grande festa e há sempre um prémio para a melhor avó e para o melhor neto. Isto é muito importante porque temos sempre muito a aprender uns com os outros. Gostei muito da experiência!
No ano em que lá estive, estavam também um escritor cubano, o Rafael, e um músico uruguaio. Aquilo correu tão bem que, no fim, ofereceram-nos três dias em Buenos Aires, com tudo pago. Nunca me cheguei a deitar nesses três dias (gargalhada) ! Íamos dançar tango, chegávamos ao hotel tardíssimo, tomava um duche e voltava para a rua. No último dia, chegámos um bocadinho mais cedo porque íamos embora no dia seguinte. Estávamos no átrio do hotel, e o Rafael pegou em mim, ainda demos ali mais três passos de tango (risos), e ele comentou: “Depois de velho é que me deu para isto”. Deviam ser cinco da manhã; o rececionista estava com cara de poucos amigos a olhar para nós e eu pensei que era porque estávamos a fazer muito barulho. Chamámos o elevador, para subir para os quartos, o rececionista chamou-me e, de dedo em riste, disse: “Ninguém é velho em Buenos Aires”. Se eu pudesse, voltava para Buenos Aires (risos).
“AS PESSOAS GOSTAM MUITO DE OUVIR HISTÓRIAS.”
Mudando de assunto, o Papa Francisco disse...
O Papa Francisco é meu primo (gargalhada) !
Verdade?
Eu explico: o Papa Francisco, de quem eu gosto muito, num livro de entrevistas, fala da sua avó italiana, chamada Rosa Vassalo. Vassalo é o meu apelido. Os Vassalo são uma única família que tem dois grandes ramos: um na ilha de Malta e outro em Itália. Se a avó do Papa Francisco é italiana e se chama Vassalo, ele é meu primo ! (gargalhada).
Ele disse “Sem idosos não há futuro” e esta frase acabaria por batizar uma petição lançada pela Comunidade de Santo Egídio, da qual é uma das signatárias. Qual é a importância deste apelo para “re-humanizar” a sociedade?
Acreditava-se que a pandemia ia unir as pessoas, mas isso não é verdade; a sociedade está muito virada para si própria, cada um olha para o seu umbigo, não olha para os outros. Por isso, quando me falaram nessa petição — julgo que foi o José Tolentino Mendonça —, eu disse logo que assinava. É fundamental que se perceba que ninguém sobrevive sozinho.
“É FUNDAMENTAL QUE SE PERCEBA QUE NINGUÉM SOBREVIVE SOZINHO.”
Defende que as pessoas deviam apenas reformar-se quando quisessem. Assume uma frase de Gracie Allen como lema de vida: “Nunca ponhas um ponto final onde Deus pôs uma vírgula”.
Reformei-me aos 74 anos e ainda fui muito a tempo. Estou reformada, mas isso não implica não ter nada para fazer. Isso deve ser horrível! Hoje em dia trabalho muito mais do que quando não estava reformada. Há, no entanto, profissões em que as pessoas com 50 anos já estão esgotadas; isso é outra coisa. Deviam poder reformar-se muito mais cedo. Acho que isso devia ser conforme a vida e o trabalho que cada um tem.
É fácil envelhecer em Portugal?
Não é nada fácil envelhecer em Portugal. As famílias, por um lado, não estão preparadas para acolher os velhos, vivem em casas muito pequenas, e, por outro lado, também não têm possibilidade de os ter em lares ou casas de repouso, que são caríssimos! Nunca mais me esqueço de que, quando andei em campanha eleitoral, há sete anos, em Mafra, visitei um lar: entrámos numa sala onde estavam três senhores atados às cadeiras, para não fugirem ou para não caírem, a olhar para a televisão, que não estava a passar nada. Tive de me vir logo embora dali.
Sinto-me uma privilegiada, neste momento, porque ninguém depende de mim e eu não dependo de ninguém. Dependo apenas do meu trabalho.
Vamos ignorar a sua data de nascimento. Com que idade se sente neste momento?
Nas palermices, sinto-me p’raí com 20 anos ! (gargalhada) No entanto, o nosso corpo já não é o mesmo… lembro-me de quando estava em Paris, quando as pessoas diziam à minha prima Maria Lamas: “A senhora está extraordinária! O que importa é a juventude de espírito”. Ela respondia: “Pois é, mas a juventude de espírito não me ajuda a descer escadas !”. Não sei que idade teria, mas 78 não teria de certeza!
Diz não ter medo da morte: “Vivi muito bem, mesmo as coisas más que me aconteceram fizeram-me bem, tenho levado uma bela vida, fiz aquilo que fiz, fiz tudo o que eu quis e portanto vou de papinho cheio”. Ainda assim, se fosse possível, mudaria alguma coisa?
Dizemos sempre que não, mas não sei se não teria começado a escrever mais cedo. Tinha 35 anos quando publiquei o Rosa, Minha Irmã Rosa. Se calhar, também foi preciso viver aquele tempo todo para escrever o que eu escrevi. Fiz as coisas certas na altura certa. Estou bem resolvida comigo e ter 78 anos dá-me uma grande vantagem: posso fazer o que eu quero e não tenho de dar satisfações a ninguém. A minha tia Aurora — que tem agora 96 anos — um dia ligou-me, tinha ela 80 e muitos anos, para me convidar para almoçar nas Docas. Quando lá chegámos, apercebi-me de que toda a gente a cumprimentava e perguntei-lhe “Vens cá muitas vezes?” e ela respondeu “À noite é muito melhor !” (gargalhada). Quando eu chegar aos 90 e tal também hei de querer ir às Docas.
“SINTO-ME UMA PRIVILEGIADA, NESTE MOMENTO, PORQUE NINGUÉM DEPENDE DE MIM E EU NÃO DEPENDO DE NINGUÉM. DEPENDO APENAS DO MEU TRABALHO.”