Três poemas de David Mourão-Ferreira

Por: Bertrand Livreiros a 2022-02-25 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

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Obra Poética
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No dia em que se assinalou o 95.º aniversário do nascimento de David Mourão-Ferreira (24 de fevereiro), a Assírio & Alvim anunciou a nova edição revista e aumentada da sua Obra Poética. Na sua escrita, “todo o poema, enquanto se elabora, é campo de batalha onde impiedosamente se defrontam a cegueira e a vontade, o acaso e a atenção, a noite e o dia”, dizia o próprio poeta, ficcionista e ensaísta. Recordamos três dos nossos poemas preferidos.



Desta edição, organizada e revista por Luis Manuel Gaspar com a colaboração de David Ferreira, fazem parte todos os livros e conjuntos de poemas organizados e publicados pelo autor, nomeadamente Obra Poética 1948-1988, com introdução de Eduardo Prado Coelho, e a sua obra posterior: Lisboa — Luzes e Sombras (1992), Música de Cama (1994), e Rime Petrose, cinco sonetos publicados na revista Colóquio/Letras em janeiro de 1995. Inclui ainda o Cancioneiro de Natal, iniciado em 1960 e que o autor considerava uma “obra aberta” ou “em suspenso”, e agora concluído com um poema de 1995, “Som de Natal”.

 

Nós temos cinco sentidos:
são dois pares e meio de asas.

- Como quereis o equilíbrio?
 


***
 


E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.


 

***
 

Mais do que um sonho: comoção!
Sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.

E recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.

Mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor.

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