Vasco Gato nasceu em Lisboa, em 30 de março de 1978, cidade onde vive e trabalha como tradutor. Publicou, na viragem do século, o seu primeiro livro de poesia, Um Mover de Mão. A esse volume inicial, seguiram-se onze coletâneas em nome próprio e duas recolhas de poesia por si traduzida. Daqui Ninguém Entra foi a sua primeira incursão na escrita dramática. Hoje, mergulhamos nas suas palavras, para celebrar o seu aniversário.
Claro que se tem medo que alguém nos entre pelos olhos. Mas podes arder. Para a tua temperatura, sou mercúrio, linhas de mão, lábio e sopro. Atravesso-te porque me atravessas e onde somos corsários rendemo-nos ao encanto da devolução.
Tu e eu à porta de um lugar que vai fechar tudo numa árvore. Aqui onde os minutos são a rua em que nos sentamos toda a tarde à espera do silêncio, onde o teu corpo pesa a medida exacta do meu desejo.
Sou um animal. Necessito diariamente da transfusão de uma enorme quantidade de calor.
Tocas-me?
in A Prisão e Paixão de Egon Schiele
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Em poesia, o sentido é o corpo intacto dentro do veículo sinistrado. Ferro contorcido e carne verbal, guardada em segredo. O poema é desencarcerar-se.
In Rusga
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haverá talvez um modo de amanhecer
que revele nos olhos o secreto ardor
com que se levanta o trigo enorme.
haverá talvez um lago que a noite não toque
e de dia em dia, como ontem, como amanhã,
cante a mulher que ali foi ver nascer o filho.
haverá talvez um suor que não o do sacrifício
e com o qual a pele cintile como uma borboleta
que vem descendo o céu até à flor dos teus lábios.
haverá talvez uma fala onde nos poderemos encontrar
sem que a tua mão esqueça a minha, sem que o sorriso
esconda o vazio, uma fala que só possa e saiba dizer nós.
haverá talvez um poema em que o soluço aperte as veias
como o rio aperta o mar, um poema em que eu e tu
dormimos sobre o luminoso esplendor do universo.
in Um Mover de Mão
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quando te beijo o beijo que tu me beijas
é que a flor envolve a terra que toca a flor
e é só a forma de os meus lábios dizerem que sim
e de os teus lábios dizerem que não
que não houve tempo antes de nós
in Um Mover de Mão
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imensamente nos deitamos um no outro
e não mais nascemos para a mão escura
que tapa o sol e afoga a lua
estamos como se tudo estivesse connosco
e connosco estivessem os nomes que primeiro se deram
flor rio azul estrela terra
in Um Mover de Mão