Para além de poetisa, Rosa Lobato de Faria foi também atriz, romancista, contista, dramaturga e guionista de novelas e séries. Em 1997, reuniu o essencial da sua poesia no volume Poemas Escolhidos e Dispersos e em 2000, obteve o Prémio Máxima de Literatura. Hoje, dia 20 de abril, data em que faria 89 anos, recordamo-la com o poema Quem me quiser, confirmando assim a convicção da autora de que “ninguém morre, só quem nós matamos na memória, no pensamento e no coração.”
Quem me quiser, de Rosa Lobato de Faria
Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantigas dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.
Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
à saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.
Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.
Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.
Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
– Ou então não saber a coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.