"Apelo à Poesia", de Carlos Queiroz

Por: Bertrand Livreiros a 2020-04-05 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

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Carlos Queiroz nasceu a 5 de abril de 1907. Foi um poeta do modernismo português, com grande destaque na Presença, revista literária portuguesa lançada em Coimbra, em 1927. Nesse ano, Carlos Queiroz estabelece a ligação entre Fernando Pessoa e a revista - na altura dirigida por João Gaspar Simões, José Régio e Branquinho da Fonseca.

Para além da Presença, Carlos Queiroz participou e publicou em várias revistas e folhas literárias: Ocidente, Atlântico, Revista de Portugal, Momento, Aventura, Vamos Ler e Litoral, que foi dirigida pelo próprio. Conhecem-se, ainda, colaborações suas nas revistas Contemporânea e Ilustração, propriedade da Aillaud Ltd., a quem, no início do século XX, chegou a pertencer, também, a Livraria Bertrand

Carlos publicou dois livros em vida. Sobre o primeiro, intitulado Desaparecido (1935), destaca-se a crítica de Fernando Pessoa: "A beleza do livro começa pelo livro. A edição é lindíssima. A beleza do livro continua pelo livro fora; os poemas são admiráveis." (in Revista de Portugal n.º 2, 1938). O segundo livro publicado foi Breve Tratado de Não Versificação, editado em 1948.

Relembramos o poeta português com um Apelo à Poesia. 

 


 

Apelo à Poesia, de Carlos Queiroz

Por que vieste? — Não chamei por ti!
Era tão natural o que eu pensava,
(Nem triste, nem alegre, de maneira
Que pudesse sentir a tua falta... )
E tu vieste,
Como se fosses necessária!

Poesia! nunca mais venhas assim:
Pé ante pé, covardemente oculta
Nas ideias mais simples,
Nos mais ingênuos sentimentos:
Um sorriso, um olhar, uma lembrança...
— Não sejas como o Amor!

É verdade que vens, como se fosses
Uma parte de mim que vive longe,
Presa ao meu coração
Por um elo invisível;
Mas não regresses mais sem que eu te chame,
— Não sejas como a Saudade!

De súbito, arrebatas-me, através
De zonas espectrais, de ignotos climas;
E, quando desço à vida, já não sei
Onde era o meu lugar...
Poesia! nunca mais venhas assim,
— Não sejas como a Loucura!

Embora a dor me fira, de tal modo
Que só as tuas mãos saibam curar-me,
Ou ninguém, se não tu, possa entender
O meu contentamento,
Não venhas nunca mais sem que eu te chame,
— Não sejas como a Morte!

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