«Num certo inverno, o Sol deixou de se levantar e o mundo cobriu-se de escuro e frio. Sem poder caçar, sem poder plantar, a família acreditou ter chegado o fim do mundo. Kianda pensou: "É preciso contar histórias às nossas crianças."»
Perante a ameaça do fim do mundo, a única salvação possível para Kianda e Kalunga — os protagonistas do mais recente livro de Mia Couto —, é evidente: é preciso contar histórias. À semelhança de A Água e a Águia e O Beijo da Palavrinha, em O Rio Infinito, o escritor moçambicano reflete, mais uma vez, sobre o poder das palavras e a importância de contar e escutar histórias — “uma necessidade”, na sua opinião, “tão vital quanto comer ou beber ou respirar.”1
Assim sendo, Kianda parte em busca de histórias com as quais alimentar as suas crianças, acabando por as encontrar no sítio mais antigo do planeta Terra, um sítio tão antigo como o próprio Tempo, “o mar, o rio de todos os rios, o primeiro de todos os ventres”, aquele que deu à luz a própria Vida.
A mensagem é clara: para salvarmos o planeta e a nós próprios há que escutar atentamente a natureza. Mais do que isso, são também as histórias passadas de geração em geração (ou apenas a História com H maiúsculo), que nos permitem aprender com o passado e, assim, construir um futuro melhor.
Afinal, uma mensagem que, tal como as das melhores histórias infantis, serve tanto para crianças como para adultos; pois, tal como escreve Mia Couto em O Beijo da Palavrinha: “Não se escreve para crianças. Teremos, apenas, idade para viver em história.”
“Os meninos ouviam o mar, o rio de todos os rios, o primeiro de todos os ventres. Nessa escuta, eles atravessaram a fronteira que separa a água e a luz, que é a mesma que separa o sonho e a vida. Eles sabiam onde se esconde o novelo do tempo”
1. Em entrevista ao site brasileiro Lunetas.