Apaixonado por livros de BD desde criança, Nuno Caravela, escritor e ilustrador, tornou-se autor de uma das coleções infantojuvenis mais acarinhadas pelos mais novos. O Bando das Cavernas, Los Cavernícolas em espanhol e The Cave Gang em inglês, duas línguas para as quais as suas aventuras já foram traduzidas, tem uma missão simples: divertir a ensinar. Juntas-te ao Bando?
Achámos que alguém que preza tanto a imaginação como o Nuno iria apreciar uma entrevista feita por um Ponto de Interrogação que adora adivinhas e vive eternamente na idade dos porquês. Se eu fosse uma personagem de uma história do Bando, que nome me daria?
Olhando para o teu chapéu, estilo repórter dos filmes americanos, eu diria que se fosses uma personagem do Bando das Cavernas o teu nome seria… Kid Curioso!
Disse numa entrevista que a sua vontade de começar a escrever nasceu do gosto pela leitura. Quais foram os livros que despertaram em si este sonho?
Aprendi a ler muito cedo e rapidamente fiquei fascinado pelas aventuras que fui descobrindo em cada livro. Na minha imaginação eu via e ouvia as personagens a falarem e a moverem-se de um lado para o outro. E eu lá estava, a viver e a sentir tudo ao lado deles. Foram tantos os livros que não consigo dizer, com toda a certeza, quais foram os que, a certa altura, me fizeram pensar (e lembro-me desse momento como se fosse hoje): “Eu acho que era capaz de escrever uma história assim!” Talvez tenha sido A Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll.
Que conselho(s) daria a uma criança que partilha o sonho de ser escritora?
Primeiro perceber que o trabalho da imaginação é transformar tudo o que observamos em histórias. Depois, divertir-se ao máximo a escrever.
Já admitiu noutras entrevistas que por vezes vai buscar inspiração a coisas que a sua fi lha e as crianças que conhece nas suas visitas às escolas lhe dizem. Conte-nos algum episódio destes que o tenha marcado especialmente.
O exemplo que vou dar não é que me tenha marcado mais do que tantos outros igualmente engraçados, o que acontece é que este acabou por resultar numas personagens muito apreciadas pelos jovens leitores do Bando. São uns guerreiros com uma técnica de defesa do seu território, digamos, pouco habitual: vão à floresta à procura dos bichos mais ameaçadores e fazem umas loções para os cabelos. Depois, ficam com uns penteados tão horríveis que ninguém se atreve a entrar no seu território. É a famosa Tribo dos Que Usam Champô e Ameaçador. Esta ideia surgiu-me quando, numa loja, a minha filha veio ter comigo com um frasco de amaciador para cabelos na mão e me perguntou: Levamos “ameaçador”?
Começou a coleção do Bando das Cavernas com a ideia de fazer livros para crianças que dizem que não gostam de ler. Acredita que estas crianças simplesmente ainda não encontraram o livro certo?
Sim. Muitas vezes é isso que acontece. A variedade de distrações que as crianças têm hoje em dia (e ainda bem), desde filmes, jogos de computador, etc., tudo sempre bastante interativo, colorido e dinâmico, é enorme. Na verdade, ler um livro também pode ser tudo isto. Mas, para isso, é necessário que o leitor perceba que existe um jogo entre a imaginação de quem escreve e a imaginação de quem lê. Só quando a imaginação do autor e do leitor se misturam é que o livro resulta verdadeiramente. Claro que isto só pode acontecer se o leitor encontrar o livro certo, aquele com que ele se identifica.
Nas histórias do Bando, a aprendizagem é também sinónimo de riso e diversão. O humor pode/deve ser uma ferramenta de ensino?
Sempre. A melhor maneira de aprender e de querer aprender mais é através da diversão, de atividades que ensinam e, ao mesmo tempo, dão prazer e alegria. É por isso que os livros da série O Bando das Cavernas — Heróis do Mundo, que fazem uma introdução divertida à História mantendo sempre o rigor, têm no final de cada aventura a frase: “Diverte-te a Aprender!”.
O mais recente livro da coleção define-se como uma novela gráfica. Para além do género, em que é que este livro difere do formato normal das histórias do Bando?
O projeto Bando das Cavernas divide-se em três séries distintas: os livros da coleção original, os livros históricos Heróis do Mundo e agora a série Novela Gráfica. Desta forma, julgo ir ao encontro dos diferentes interesses da maioria dos jovens leitores, porque o objetivo principal é sempre estimular o gosto pela leitura. A diferença das novelas gráficas em relação aos outros livros é que tudo é levado ao limite, expressões superexagera das e situações absurdas que só nos cartoons fazem sentido. Nas novelas gráficas os leitores vão ter oportunidade de ver o Bando como nunca antes o tinham visto, o que acaba por ser superdivertido.
Tem uma personagem preferida do Bando ou alguma com quem se identifique mais?
Gosto de todos igualmente. Às vezes penso se eu próprio não serei o conjunto de todos eles.
Nas histórias do Bando, aparecem regularmente figuras célebres com um trocadilho no nome, como é o caso do maestro Victorino d’Almeida, a quem chama de Violino d’Almeida. Se o Nuno aparecesse numa história do Bando, qual seria o nome da sua personagem e qual a principal característica por que seria conhecida?
Na verdade, já apareci numa aventura a pedido do Bando e mantive o meu nome igual. Durante a minha participação como personagem desse livro, embora secundária, afirmava que: “É muito mais fácil escrever as aventuras do Bando do que participar nelas!” O que provocava grande risota nos nossos amigos pré-históricos. Já agora, para quem tiver curiosidade, o livro de que estou a falar é o Bando das Cavernas — Heróis do Mundo 7.
Esta entrevista foi publicada na Revista Somos Livros Infantil (edição abril 2023).