Roger Eatwell: “Precisamos de um eleitorado leitor”

Por: Beatriz Sertório a 2019-10-31

Roger Eatwell

Roger Eatwell é professor emérito de Política Comparada na Universidade de Bath. Tem vasta obra publicada sobre o tema do fascismo, especialmente sobre populismo contemporâneo.

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Matthew Goodwin

Matthew Goodwin é professor de Política na Universidade de Kent e Senior Visiting Fellow em Chatham House. Publicou cinco livros e trabalhou com centenas de organizações em temas relacionados com a volatilidade política no Ocidente. Escreve regularmente para o The New York Times e o Financial Times.

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Juntamente com Matthew Goodwin , Roger Eatwell escreveu o guia definitivo para entender as  recentes   transformações na paisagem política da Europa.  Publicado no passado dia 25 de outubro,    Populismo – A revolta contra a Democracia Liberal   (Desassossego), analisa as nuances por detrás do aumento dos movimentos populistas, rejeitando a visão simplista que vê nesta mudança radical “o último grito desesperado de um eleitorado envelhecido e à beira da extinção” (da sinopse).

No início desta semana, recebemos Roger na nossa livraria Bertrand do Chiado e, após uma visita guiada à livraria mais antiga do mundo, tivemos uma breve conversa com o autor sobre estes movimentos, bem como o papel fundamental que a literatura pode desempenhar face a este fenómeno.

 


 

A Ameaça do Populismo em Portugal

Tendo como cenário de fundo o mural de Fernando Pessoa do nosso Café Bertrand, Roger Eatwell começa por admitir que há apenas um ano achava improvável que os movimentos populistas viessem a constituir uma ameaça real em Portugal ou em Espanha. Sendo países nos quais as cicatrizes do nacionalismo são ainda muito recentes (em Portugal, com o regime de Salazar e em, Espanha, com o de Franco), nada faria prever acontecimentos como o crescimento massivo de partidos como o espanhol Vox ou a recente eleição do deputado do partido nacionalista Chega, André Ventura, para o Parlamento português.

Embora considere que em Portugal é ainda precoce falar numa verdadeira mobilização populista, Eatwell crê que há dois fatores principais que poderão contribuir para que esta seja uma ameaça mais presente no futuro . Em primeiro lugar, a corrupção – um tema central no discurso dos líderes de movimentos populistas, e que tem vindo a ser um problema cada vez mais evidente na política portuguesa. Em segundo lugar, a imigração –  um indicador crucial no desenvolvimento de movimentos nacionalistas, e que terá cada vez mais impacto  com o despovoamento gradual das gerações mais jovens em Portugal.

 

 

A Leitura como Combate à Desinformação

Embora estas transformações no clima político aconteçam subitamente, Roger acredita que a literatura pode ter um papel fundamental no combate ao crescimento dos movimentos nacionalistas. Na sua opinião, se olharmos para países onde este fenómeno mais tem proliferado – por exemplo, EUA, com Donald Trump , França, com Marine LePen ou na Grã-Bretanha, com o partido do Brexit , – o eleitorado destes candidatos é, regra geral, um eleitorado de um nível de educação inferior e que lê pouco. Nesse sentido, considera indispensável que eduquemos os jovens de hoje para a leitura, tanto na escola como em casa. Para Eatwell, a principal arma da literatura, contra os discursos nacionalistas, é o facto de munir os leitores de diferentes pontos de vista – sendo  possível, a partir de um livro, ficar a conhecer a perspetiva de um homem ou de uma mulher, jovem ou adulto, de contextos culturais e socioeconómicos muito diferentes dos nossos.

Quando questionado acerca do livro que recomendaria que as pessoas lessem para terem um melhor entendimento do atual clima político, Roger preferiu encorajar à leitura, seja de que género for: 

 

Acho que é muito difícil criar uma fórmula. Algumas pessoas    interessam-se muito por futebol e existem livros sobre futebol que abordam temas como o racismo. É mais provável que alguém que seja fã de futebol aprenda alguma coisa sobre o racismo ao ler um livro desse género do que lendo um livro académico abstrato, sobre teorias do racismo. Portanto, diria para tentarem ler o que vos interessa, livros que vos desafiem, de alguma forma, e à forma como pensam,  e que vos façam não ter uma visão  limitada do mundo. É isso que é fantástico na literatura.

 
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