A 13 de abril de 1906, nascia, em Dublin, o romancista e dramaturgo Samuel Beckett. Tendo presenciado duas Guerras Mundiais (e combatido numa delas), foi na busca por um significado perante a irracionalidade da guerra que se inspirou para escrever as peças que viriam a fazer parte de um movimento intitulado Teatro do Absurdo. Juntamente com autores como Arthur Adamov, Eugène Ionesco e Jean Genet, e tendo como influências principais Albert Camus e James Joyce, escreveu sobre a existência humana na única linguagem que pode subsistir num mundo para o qual já não é possível encontrar um sentido: a linguagem do absurdo, da irracionalidade, e, muitas vezes, dando lugar ao silêncio.
Por ser considerado um dos precursores do pós-modernismo e ter escrito algumas das mais influentes obras do seu tempo, recebeu, em 1969, o Prémio Nobel da Literatura. Hoje, 114 anos depois do seu nascimento, recordamo-lo e revisitamos uma das suas mais importantes obras, À espera de Godot, à luz da pandemia que vivemos atualmente.
ESTAMOS TODOS À ESPERA DE GODOT
Estrada, árvore, à noite. É assim que Beckett prepara a cena inicial de À Espera de Godot, uma das suas principais peças e uma das mais influentes obras do século XX. Posta em cena pela primeira vez no Théâtre Babylone, em Paris, em 1953, esta tragicomédia em dois atos tem, desde então, sido alvo de inúmeras interpretações. Nela, assistimos ao diálogo de duas personagens, Vladimir e Estragon, que esperam em vão por Godot. Nada é dito sobre quem ou o que é Godot, ou mesmo a razão pela qual os dois aguardam a sua chegada (aliás, Beckett disse mesmo numa entrevista que se ele próprio o soubesse, o teria colocado na peça). No entanto, o verdadeiro foco da peça é a espera em si, esse tempo suspenso que os dois preenchem com conversas aparentemente banais.
Recriação amadora de À espera de Godot, durante a quarentena.
Hoje, perante a situação de pandemia que assolou o mundo inteiro e que confinou milhões de pessoas aos limites da sua casa, podemos voltar a encontrar ecos de Beckett na nossa realidade, e lê-lo sob uma nova luz. Como Vladimir e Estragon, não temos outra opção senão esperar. Não sabemos por quanto tempo teremos de esperar, ou o que o fim da espera nos trará, mas esperamos. Em isolamento, preenchemos as horas da melhor maneira que conseguimos: lemos, ouvimos música, vemos filmes, partilhamos conversas ao telefone ou de uma varanda para outra, dançamos à janela ou mesmo sem ninguém a ver. Convencemo-nos de que no fim, esse fim que ninguém sabe quando ou como chegará, vai ficar tudo bem. Da mesma forma que Vladimir força Estragon a declarar que é feliz.
Contudo, aquilo a que tanto Beckett como a quarentena nos obrigam é a pôr em causa as noções de felicidade e existência sob as quais nos regemos, a refletir sobre aquilo que é realmente importante e, sobretudo, a perceber que a espera não é um tempo suspenso, mas aquilo de que é feita a nossa própria vida; que a maior parte dos nossos dias são banais mas que essa mesma banalidade é importante e necessária, tal como as pausas num diálogo ou o silêncio. Beckett ensina-nos também a procurar o cómico na tragédia, a aceitar o absurdo da vida como algo belo e a ver no fim da mesma não um infortúnio mas uma mera inevitabilidade. Como escreve noutra peça emblemática, Endgame, “o fim está no princípio e no entanto prosseguimos”.