«Quem nos disse», pergunta Duarte Scott, «que as emoções importantes não são as que sente o corpo sem que se intrometa o pensamento?». Em Exposição, primeiro livro do autor, que muito expõe e muito esconde, o pensamento intromete-se no corpo, e o inverso.
A propósito da estreia do autor, partilhamos consigo dois dos seus poemas.
Conferência
Contrato, diz a lei. Mas a frieza
das palavras não persiste até ao fim.
Comparecemos. Quão
parecidos. Unidos
na vontade, lado a lado
ainda uma vez.
Dar anúncio, e forma pública, ao desejo
de deixar-te: e em voz alta ouvir inteiro,
na boca burocrática, o teu nome.
A metáfora, depois
de homologada, refaz-se
no corpo, contreta —
E foram literais, agora, os laços
que soubemos destorcer só por decreto.
Flor da Pele
Letra de canção que não chegou a ter música
Do meu palco eu oferecia
flores fingidas, que fingia
ter trazido dos jardins
que só via da janela:
flores de arame e de papel.
Um papel que eu recitava,
e as folhas que desfolhava
eram páginas do herbário.
Mas o livro encadernado
não mostrava em nenhum lado
a raiz a germinar num carrossel
de sangue pelos caules, que liberta
as pétalas da carne e a flor da pele
despida que desperta ao sol, aberta.