Para além de ser um dos romancistas de maior destaque da literatura portuguesa contemporânea, José Luís Peixoto tem também feito algumas incursões na poesia. O seu primeiro livro de poemas, A Criança em Ruínas, publicado em 2001, foi o vencedor do Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores 2013. A esse, seguiu-se A Casa, a Escuridão no ano seguinte, e, em 2008, o livro Gaveta de Papéis, foi o vencedor do Prémio Daniel Faria. Regresso a casa é o quarto livro de poesia de José Luís Peixoto e fala-nos das quatro paredes de uma casa - e de todas as suas recordações em tempo de pandemia.
No dia em que José Luís Peixoto celebra o seu 46º aniversário, fique a conhecer o poema Quarentena, publicado no seu mais recente livro.
Quarentena, de José Luís Peixoto
Olhamo-nos nos olhos pela internet.
Eu transmito-te este domingo à tarde,
a voz do vizinho através da parede.
Tu transmites-me a distância que existe
depois do que consigo ver pela janela.
Durante a noite mudou a hora e, no entanto,
continuamos no tempo de ontem.
Como é raro este domingo, não podemos
garantir que amanhã seja segunda-feira.
O futuro perdeu-se no calendário, existe
depois do que conseguimos ver pela janela.
O futuro diz alguma coisa através da parede,
mas não entendemos as palavras.
Lavamos as mãos para evitar certas palavras.
E, mesmo assim, neste tempo raro, repara:
tu e tu estamos juntos neste verso.
O poema é como uma casa, tem paredes
e janelas, é habitado pelo presente.
Olhamo-nos nos olhos pela internet,
estamos verdadeiramente aqui.
O poema é como uma casa,
e a casa protege-nos.
(29 de março de 2020)