Uma ambição mais alta do que a Lua

Por: Marisa Sousa a 2020-03-06

Karoline Kan

Karoline Kan

Karoline Kan, que trabalhou como repórter na redação do The New York Times em Pequim, ganhou o Prémio das Associação Internacional de Jornalistas da China em 2016, e foi jornalista da Rádio France Internacional e da revista That’s Beijing. Em 2019, foi distinguida com o Young China Watcher of the Year. Atualmente é editora do jornal digital China Dialogue – e vive em Pequim.

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Foi concebida durante a vigência da Política do Filho Único. A existência de uma irmã mais velha ditava-lhe um destino quase certo, que a mãe decidiu desafiar. Durante a infância, os pais acreditavam que era uma criança “estranha” e apelidaram-na de genpichong (carrapato), pelo facto de os seguir constantemente para os ouvir contar histórias. Hoje, Karoline Kan, ex-repórter do The New York Times, em Pequim, e atual editora do jornal digital China Dialogue, é um dos exemplos dos millennials que quebraram as tradições – especialmente as impostas às mulheres.  

 


 

Karoline Kan

 

Nasceu em 1989, numa década em que vigorava a Política do Filho Único, implementada em consequência do aumento da população para mais de mil milhões. Às mulheres incumpridoras, eram impostas multas e abortos forçados. Durante os trinta anos em que vigorou esta política, acredita-se que as famílias se tenham livrado de muitas meninas, afogando-as, asfixiando-as ou abortando. Há números que apontam para cerca de trinta e sete milhões de meninas desaparecidas. A preferência dos chineses por descendência masculina tem mais de dois mil anos, conseguindo os habitantes apontar dezenas de razões para esta preferência. «Herdam o nome da família; apoiam financeiramente a família quando esta envelhece; varrem os seus túmulos, depois da sua morte» são apenas algumas das mais falíveis e questionáveis.

«A maioria dos chineses pode não ser politicamente ativa, mas muitos são politicamente tagarelas», confessa Karoline, quando descreve o momento em que começou a entender que era o governo quem decidia o que estava certo ou errado. Foi ensinada a acatar ordens, a contentar-se com isso, a não pensar em nada nem a tomar decisões por iniciativa própria – simplesmente, a seguir e obedecer. «Só que, no meu íntimo, já decidira não fazer isso.» A decisão ocorreu por altura da sua graduação. Mais tarde, aos 25 anos, ainda sem casar, estava cada vez mais perto do seu “prazo de validade”. “Mulheres de sobra” era o termo usado para designar as mulheres que chegavam aos 28 anos sem terem encontrado marido.

Karoline seguiu as suas convicções, renunciando às tradições que lhe pareciam ir contra a sua dignidade, a sua vontade e as suas ambições. Tendo em vista a sua felicidade e a sua realização pessoal e profissional, leva-nos pela mão numa viagem à China, ao longo de três gerações da sua família. No final da viagem, acreditamos que se terá cumprido a profecia da vidente que a sua avó terá consultado um dia, tentando antever o futuro de Karoline: «Ela põe a ambição mais alto do que a Lua.»

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