A violência do colonialismo não se traduz apenas em tiros e explosões; muitas vezes, a guerra maior é aquela que decorre no interior das suas vítimas. A obliteração de uma cultura e imposição de outra, a imposição de uma nova língua, crenças e costumes, e a gradual perda de identidade, são as armas desta guerra silenciosa, que Abulrazak Gurnah descreve detalhadamente nos seus livros.
Em Vidas Seguintes, o seu romance mais recente, o autor regressa à Tanzânia, o país que o viu nascer, para refletir sobre os efeitos devastadores da colonização alemã e da Primeira Guerra Mundial na África Oriental. Destes, um dos que se torna, desde logo, evidente é o da língua transformada numa tapeçaria intricada de palavras e expressões entre o alemão e o suaíli, e o emudecimento que habita o espaço entre ambas. Com estas palavras nascidas da guerra, compilámos um pequeno dicionário da violência, como pedaços de uma identidade fragmentada que é reflexo e legado do Colonialismo.
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Askari: (suaíli) soldado. Termo que foi utilizado para descrever tropas indígenas, da África Oriental e do Médio Oriente, que serviram nos exércitos das forças coloniais europeias. Durante a Segunda Guerra Mundial, os alemães voltaram a utilizar este termo; desta vez, para se referirem aos desertores e prisioneiros de guerra, predominantemente russos, que formaram unidades de combate contra o Exército Vermelho.
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Dummkopf: (alemão) tolo; estúpido. Insulto utilizado pelos colonizadores alemães.
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Woerterbuch der Vergangenheitsbewaeltigung: (alemão) Dicionário para aceitar o passado (tradução aproximada). Embora não esteja presente no livro, este dicionário que examina cerca de mil palavras e expressões relacionada com e/ou formadas na Alemanha Nazi é um paralelo curioso de como os conflitos moldam as palavras e vice-versa.
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Mdachi: (suaíli) termo utilizado para designar os alemães. Curiosamente, também é calão para “pessoa estilosa”.
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Oberleutnant: (alemão) patente militar da Alemanha equivalente a Tenente-coronel. Símbolo principal do opressor de Hamza, um dos protagonistas de Vidas Seguintes.
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Schutztruppe: (alemão) tropa de proteção da África Oriental Alemã. A maioria dos alistados (ou askari) era recrutada em comunidades indígenas dentro das colónias alemãs.
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Vita: (suaíli) o mesmo que “krieg” em alemão; guerra. O facto de ser idêntico ao termo em latim para “vida” parece funcionar como símbolo da mensagem sempre presente em Vidas Seguintes. Mesmo na guerra, existe vida e existe amor.
Natural da Tanzânia, Abdulrazak Gurnah vive atualmente no Reino Unido, desde que foi forçado a fugir do seu país no rescaldo da Revolução de Zanzibar. Foi agraciado com o Prémio Nobel de Literatura 2021 “pela forma determinada e humana com que aborda e aprofunda as consequências do colonialismo e o destino do refugiado no fosso entre culturas e continentes”.