Em 10 de maio de 1933, foram queimados em praça pública, em várias cidades da Alemanha, mais de 20 000 livros, com o objetivo de purificar a literatura de todos os elementos estranhos que pudessem alienar a cultura alemã. Talvez julgássemos que este tipo de práticas, características de governos extremistas e autoritários, não se repetiriam, acreditando ter aprendido com a história as lições que esta, tão pacientemente, nos oferece. Não podíamos estar mais enganados.
Nos últimos anos, um pouco por tudo o mundo, temos assistido a atos semelhantes, em nome da higienização ideológica da literatura e da preservação da segurança das sociedades e dos governos. Vivemos tempos de polarização de opiniões, posições que se extremam num piscar de olhos, constante policiamento da linguagem e da história, acreditando alguns que temos legitimidade para apagar o que de incómodo se escreveu no passado. Alberto Manguel, escritor e bibliófilo, recorda-nos que ler é sempre um ato de poder. É também, acreditamos nós, um ato que exige espírito crítico e reflexão. Devem entidades e governos definir e impor o que pode ou não ser lido? Censurar, fazer desaparecer ou queimar livros, considerados impróprios aos olhos de um século XXI, tantas vezes politicamente correto em excesso, combate desigualdades e torna-nos seres humanos mais justos e empáticos?
“ONDE SE QUEIMAM LIVROS, ACABARÃO POR SE QUEIMAR TAMBÉM PESSOAS.”
- Heinrich Heine (1797-1856) poeta alemão
A PURIFICAÇÃO DA LITERATURA E DA EDUCAÇÃO
ASTÉRIX, POCAHONTAS, LUCKY LUKE & TINTIN INADEQUADOS
2019. COMISSÃO ESCOLAR DE PROVIDENCE, CANADÁ
Uma comissão escolar que tem a seu cargo a gestão de 30 escolas católicas de língua francesa queimou cerca de 4 700 obras, alegando que estas continham conteúdos “desatualizados e inadequados”, apresentando estereótipos negativos dos povos indígenas. Foram, igualmente, eliminados os livros que continham as palavras “índio” e “esquimó”, consideradas depreciativas há vários anos. As cinzas resultantes da “cerimónia” foram utilizadas como adubo para plantar uma árvore. Entre os livros queimados constavam histórias protagonizadas por Astérix, Tintin, Pocahontas e Lucky Luke.
MANUAIS ESCOLARES COM IDEOLOGIA
2019. BRASIL
O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, apelidou os atuais livros escolares de “lixo”, dizendo que não podem ter “essa historinha de ideologia”. Acrescentou, ainda, que, a partir de 2021, o governo iria “suavizar” a linguagem dos materiais entregues nas escolas: “Os livros hoje em dia, como regra, são um montão de amontoado de muita coisa escrita. Tem que suavizar aquilo.”
MANUAIS ESCOLARES ANTICAPITALISTAS
2020. REINO UNIDO
O Governo britânico baniu das escolas todos os livros e materiais escolares associados à promoção do fim do capitalismo, apelidando o anticapitalismo de “política extremista”. Na comunicação emitida pelo Departamento de Educação, citado pelo The Guardian, o anticapitalismo é associado à falta de liberdade de expressão e ao antissemitismo, sendo equiparado ao “desejo publicamente declarado de abolir ou derrubar a democracia” ou de acabar “com eleições livres e justas”.
MANUAIS ESCOLARES E LIVROS QUE AMEAÇAM A SEGURANÇA NACIONAL
2020. HONG KONG
Na sequência da implementação da lei de segurança nacional em Hong Kong, Pequim retirou das bibliotecas livros escritos por militantes pró-democracia e manuais escolares que violem a lei sobre segurança. A lei de segurança nacional, em vigor desde junho de 2020, estabelece que subversão, secessão, terrorismo e conspiração com forças estrangeiras são crimes.
MANUAIS ESCOLARES ESTRANGEIROS
2020. CHINA
O Governo chinês proibiu livros estrangeiros em escolas públicas. Na lista constam manuais didáticos, pedagógicos e romances clássicos, como a Odisseia, de Homero, ou Romeu e Julieta, de Shakespeare. O motivo: preocupação com a educação dos seus alunos, que é “corrompida pela literacia de outras nações”.
VINGADORES: A CRUZADA DAS CRIANÇAS, DA MARVEL, E O BEIJO PROIBIDO
2019. RIO DE JANEIRO, BRASIL
Durante a Bienal do Livro do Rio de Janeiro, o prefeito, Marcelo Crivella, mandou recolher todos os exemplares da novela gráfica Vingadores: A Cruzada das Crianças, por conter uma imagem que ilustra um beijo entre dois jovens do sexo masculino. Crivella defendeu que a obra contém “conteúdo sexual para menores” e que “livros assim precisam estar em um plástico preto, lacrado, avisando o conteúdo”.
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OS MAIAS, DE EÇA DE QUEIROZ, E A DESUMANIZAÇÃO DAS PERSONAGENS FEMININAS
2020. UNIVERSIDADE DE MASSACHUSSETTS DARTMOUTH, EUA
Diana Simões, professora, apresentou uma conferência que incidia sobre a obra Os Maias, de Eça de Queiroz, discutindo o modo como o romance “desumanizava” as personagens femininas, justapondo-as a animais, plantas ou objetos.
OS MAIAS, DE EÇA DE QUEIROZ, UM ROMANCE RACISTA
2021. UNIVERSIDADE DE MASSACHUSSETTS DARTMOUTH, EUA
Vanusa Vera-Cruz Lima, uma estudante de doutoramento, que também ensina português, deu uma palestra, através da plataforma Zoom, que partia da pergunta “Serão Os Maias de Eça de Queirós um romance racista?”, propondo que as edições do romance, adotadas nas escolas, incluíssem um “comentário pedagógico”.
AS AVENTURAS DE HUCKLEBERRY FINN, DE MARK TWAIN, E AS PALAVRAS PROIBIDAS
2021. EDITORA NEW SOUTH BOOKS, EUA
Por ocasião do centenário de Mark Twain (1835-1910), a editora New South Books preparou uma reedição controversa de As Aventuras de Huckleberry Finn: as palavras “nigger” (negro, provavelmente a palavra com maior potencial ofensivo da língua inglesa) e “injun” (expressão, considerada ofensiva, utilizada para designar os índios americanos) serão substituídas pelos termos “slave” (escravo) e “indian” (índio).
MATARAM A COTOVIA, DE HARPER LEE, UM LIVRO PROBLEMÁTICO
2021. ESCOLA SECUNDÁRIA JAMES GILLESPIE, EDIMBURGO, ESCÓCIA
A escola secundária James Gillespie anunciou que vai retirar alguns clássicos do programa, substituindo-os por “textos menos problemáticos”. Uma dessas obras é Mataram a Cotovia (1960), de Harper Lee, alegando, entre outros motivos, que promove a ideia do “salvador branco” e que contém 40 ocorrências da palavra “nigger” (negro).
A COLEÇÃO RACISTA DE DR. SEUSS, DE THEODOR GEISEL (DR. SEUSS)
2021. DR. SEUSS ENTERPRISES, EUA
Na data em que celebrava o aniversário do escritor Theodor Geisel (Dr. Seuss), a empresa Dr. Seuss Enterprises suspendeu a publicação e a venda de seis livros da tradicional coleção Dr. Seuss, com a qual milhões de crianças americanas aprenderam a ler. A circulação das obras do criador de clássicos como Que Amigo Levo Comigo? e Como o Grinch Grinch foi banida por conter desenhos considerados racistas. O objetivo? “Apoiar todas as crianças e famílias, com mensagens de esperança, inspiração, inclusão e amizade.”
Queimar o Passado e Reescrever a História
O QUE DIZEM ALGUNS ESPECIALISTAS
”Será que não é possível hoje alguém escrever um romance em que apareça um escravocrata a elogiar as vantagens da escravatura, o que, de um ponto de vista literário, até pode ser uma forma de denúncia muito eficaz? (…) não podemos combater o racismo ameaçando a autonomia da arte.”
Abel Barros Baptista catedrático do departamento de Estudos Portugueses da Universidade Nova de Lisboa
(in Jornal Público, 3 abril 2021)
”Olho isto com muita preocupação, porque há aqui uma demissão, em muitos aspectos. Quando os textos são retirados por terem uma palavra ‘proibida’, estamos num nível de indigência intelectual. Faz sentido o professor encarar isso com os alunos.”
Raquel Ribeiro
professora de Estudos Portugueses e Latino-americanos na Universidade de Edimburgo desde 2014 (in Jornal Público,
18 julho 2021)
”Não há nada que esconder coisa nenhuma, nomeadamente os clássicos. As ideias, os valores
são para serem discutidos.
E se nós preservarmos bem a liberdade conseguiremos construir um caminho para discussões aprofundadas. Mas é a falar sobre elas.
Não a esconder.”
Jorge Vala,
psicólogo social e investigador emérito do Instituto de Ciências Sociais, autor do livro Racismo, Hoje — Portugal em Contexto Europeu (in Jornal Público, 18 julho 2021)
”Isto é um equívoco teórico tão elementar que chega a ser constrangedor. Todas as épocas pagam um pesado tributo ao próprio tempo. Não existe um momento histórico no qual não haja preconceito, incompreensão e mal-entendidos sobre os temas mais variados.
É necessária uma formação teórica básica.
É como se nos arvorássemos a ser juízes de todos os tempos históricos, com a excepção do nosso.”
João Cézar de Castro Rocha
ensaísta, professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro(in Jornal Público, 18 julho 2021)
”Acho perigoso. A função da literatura é levar os alunos a pensar. É por isso que, por exemplo, lecciono literatura colonial. A literatura não pode ser um lugar ideologicamente higiénico.”
Inocência Mata
ensaísta e professora na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (in Jornal Público, 18 julho 2021)
”Tirar obras dessas é querer regressar ao grau zero da leitura. À incapacidade de ler a ironia, a metáfora.”
Noémia Santos,
professora de Português no ensino secundário há 40 anos (in Jornal Público, 18 julho 2021)