"Aquele que testemunhou o abismo, as fundações da terra,
experiente de caminhos, em tudo era sábio!
Gilgameš, que testemunhou o abismo, as fundações da terra,
experiente de caminhos, em tudo era sábio!
Aonde estavam os poderes, foi averiguá-los,
de cada coisa extraiu um ápice de sabedoria.
O que era secreto encarou, o oculto trouxe à luz:
resgatou a memória de antes do Dilúvio.
[…]"
É considerado o mais antigo poema longo a chegar até aos nossos dias. Em 12 cantos, composto por 300 versos cada, este épico da Mesopotâmia, com uma história de cerca de 4.000 anos, narra os fascinantes e comoventes feitos heróicos do rei Gilgameš, fundador da cidade de Uruk - antiga cidade que se situava a 270 Km a sul de Bagdade - e da sua busca solitária da imortalidade.
Os primeiros fragmentos deste poema, preservados em placas de argila, com caracteres cuneiformes, foram encontrados em ruínas, na Mesopotâmia, em 1890. Foi traduzido em diversas línguas, sendo a mais completa e conhecida a que data do século VII a.C., que conta com cerca de 3000 a 3500 versos, a que pertencia à biblioteca de Assurbanipal - o último grande rei do Império Assírio.
Entre os leitores e admiradores confessos da obra, encontram-se nomes como Rilke, Freud, Jung, Mann e Hermann Hesse, que o apelidou de tesouro de ouro ("a treasure of gold") e o classificou como um dos poemas mais poderosos que lera. O escritor Elias Canetti afirmou que a descoberta de Gilgameš teve uma influência decisiva na sua vida, como nenhuma outra coisa no mundo o havia feito: “senti o efeito de um mito: de qualquer coisa em que pensei de várias formas durante os anos seguintes.”
Michael Schmidt, na sua obra Gilgamesh: The Life of a Poem (Princeton), sugere que encaremos esta obra não como algo polido e finalizado, mas que vejamos a história como a própria vida: desarrumada e ambígua.
Fonte: Gilgamesh Among Us: Modern Encounters with the Ancient Epic