E se Shakespeare fosse uma mulher?

Por: Sónia Rodrigues Pinto a 2019-06-17 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

William Shakespeare

William Shakespeare

Poeta e dramaturgo inglês nascido em 1564, em Stratford-Upon-Avon, e falecido em 1616. O seu aniversário é comemorado a 23 de abril e sabe-se que foi batizado a 26 de abril de 1564. Stratford-Upon-Avon era então uma próspera cidade mercantil, uma das mais importantes do condado de Warwickshire. O seu pai, John Shakespeare, era um comerciante bem sucedido e membro do conselho municipal. A mãe, Mary Arden, pertencia a uma das mais notáveis famílias de Warwickshire. Shakespeare frequentou o liceu de Stratford, onde os filhos dos comerciantes da região aprendiam Grego e Latim e recebiam uma educação apropriada à classe média a que pertenciam. São conhecidos poucos factos da vida de Shakespeare entre a altura em que deixou o liceu e o seu aparecimento em Londres como ator e dramaturgo por volta de 1599. Em 1582 casou com Anne Hathaway, oito anos mais velha do que ele, e o casal teve três filhos: Suzanna (nascida em 1583), e os gémeos Hamnet e Judith (nascidos em 1585). A primeira referência a Shakespeare como ator e dramaturgo encontra-se em A Groatsworth of Wit (1592), um folheto autobiográfico da autoria do dramaturgo londrino Robert Greene, onde o escritor é acusado de plágio. Nesta altura Shakespeare era já conhecido em Londres, embora não se saiba com exatidão a data do seu aparecimento na capital. Em virtude do encerramento dos teatros londrinos entre 1592-94, Shakespeare compôs nessa época dois poemas narrativos: Venus and Adonis (publicado em 1593) e The Rape of Lucrece (publicado em 1594). No inverno de 1594 integrou a mais importante companhia de teatro isabelina, The Lord Chamberlain's Men, onde permaneceu até ao final da sua carreira. A companhia deveu à popularidade de Shakespeare o seu lugar privilegiado entre as restantes companhias de teatro até ao encerramento dos teatros pelo Parlamento inglês em 1642. Em 1598 foi inaugurado o Globe Theatre, o teatro da companhia a que Shakespeare se associara, construído pelo ator e empresário Richard Burbage no bairro de Southwark, na margem sul do Tamisa. Depois da ascensão ao trono de Jaime I (em 1603) a companhia The Lord Chamberlain's Men passou para a tutela real, e o seu nome foi alterado para The King's Men. A passagem de Shakespeare pelos palcos associa-se a breves desempenhos: Adam na peça As You Like It e o fantasma (Ghost) em Hamlet. Depois de ter comprado algumas propriedades em Strattford, Shakespeare retirou-se para a sua terra natal em 1610, mantendo todavia o contacto com Londres. O Globe Theatre foi destruído pelo fogo no dia 23 de junho de 1613, durante uma representação da peça Henry VIII. Além de uma coleção de sonetos e de alguns poemas épicos, Shakespeare escreveu exclusivamente para o teatro. As suas 37 peças dividem-se geralmente em três categorias: comédias, dramas históricos e tragédias. Entre os dramas históricos, género que primeiro cultivou, destacam-se Richard III (Ricardo III), Richard II (Ricardo II) e Henry IV (Henrique IV). Entre as suas comédias contam-se Love's Labour's Lost, The Comedy of Errors, The Taming of the Shrew, a comédia de intenção séria The Merchant of Venice (O Mercador de Veneza), As You Like It (Como Quiserem) e A Midsummer Night's Dream (Um Sonho de Uma Noite de Verão). A tragédia não é uma forma que pertença exclusivamente a um determinado período na evolução da obra de Shakespeare. Sob influência de Marlowe, a forma de tragédia já se encontrava nas peças que dramatizavam episódios da História inglesa. Em Romeo and Juliet (Romeu e Julieta) e Julius Caesar (Júlio César) Shakespeare combinou a perspetiva histórica com uma interpretação trágica dos conflitos humanos. O período em que Shakespeare escreveu as suas grandes tragédias iniciou-se com Hamlet, escrita entre 1600-1602, a que se seguiram Othelo, Macbeth, King Lear, Anthony and Cleopatra e Coriolanus, todas elas compostas entre 1601 e 1608. Na última fase da carreira de Shakespeare situam-se as peças de tom mais ligeiro: Cymbeline, The Winter's Tale e The Thempest. Parte das obras de Shakespeare foram publicadas durante a vida do autor, por vezes em edições pirateadas, mas só em 1623 apareceu a edição "Fólio", compilada por John Heminges e Henry Condell, dois atores que tinham trabalhado com Shakespeare. No século XVIII as peças foram publicadas por Alexander Pope (em 1725 e 1728) e Samuel Johnson (em 1765), mas só com o Romantismo se compreendeu a profundidade e extensão do génio de Shakespeare. No século XX reforçou-se a tendência para considerar a obra de Shakespeare integrada nos contextos dramáticos que a suscitaram.

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Francis Bacon, Christopher Marlowe e Edward de Vere, 17.º Conde de Oxford. O que têm estes três nomes em comum? Todos foram apontados como a verdadeira identidade de William Shakespeare. Mas e se o dramaturgo mais influente do mundo fosse, na realidade, uma mulher?

O cepticismo em torno da identidade de Shakespeare já não é propriamente novidade. Desde académicos a advogados, passando por atores, professores, juízes e até alguns escritores – como Walt Whitman, Mark Twain, Henry James ou Sigmund Freud -, muitas são as personalidades que defendem que William Shakespeare não é, muito provavelmente, o autor das suas obras.

Apesar de a sua vida estar documentada de forma notável, para os critérios da época, não há registos que o apontem como escritor. Existem mais de 70 documentos que confirmam que Shakespeare foi ator, investidor numa companhia de teatro e prestamista. Os arquivos chegam ainda a comprovar que fugiu aos impostos, que foi multado por armazenar comida numa época de escassez e, inclusive, que foi sujeito a uma ordem de restrição. O que continua a faltar é qualquer indício daquilo que Shakespeare alegadamente escrevia. 

A jornalista Elizabeth Winkler, através do jornal online The Atlantic, lançou agora uma nova teoria de que William Shakespeare poderá ter sido, afinal, uma mulher.

No artigo, publicado no início de junho, Winkler menciona a importância que as personagens femininas tiveram na sua leitura de Shakespeare. Na comédia Much Ado About Nothing, Beatrice mostra-se enfurecida com as limitações do seu sexo (“O God, that I were a man! I would eat his heart in the marketplace”).

Kate, em The Taming of the Shrew, recusa-se a ser silenciada pelo marido (“My tongue will tell the anger of my heart, / Or else my heart concealing it will break”). Ou Emilia, numa das suas últimas falas em Othello, argumenta a favor da igualdade de género. (“Let husbands know / Their wives have sense like them”).

John Ruskin afirmara, no século XIX: “Shakespeare não tem heróis – só heroínas“. Terá isto algum peso na verdadeira identidade de um dramaturgo envolto em mistério?

 

 

Emilia Bassano, a candidata perfeita

Em 1593, Gabriel Harvey, escritor e poeta inglês, refere nos seus textos uma notável mulher de boas famílias, que escreveu três sonetos e uma comédia, recusando-se a oferecer uma descrição mais detalhada. Relativamente ao trabalho desta mulher-mistério, no entanto, Harvey considera ser imortal. Simultaneamente, foi em 1593 que apareceu pela primeira vez o nome de Shakespeare, no poema “Venus e Adonis”. Coincidência? Ou a prova que faltava?

Elizabeth Winkler teoriza que esta mulher misteriosa, descrita por Harvey, pode ter sido a verdadeira autora das obras de Shakespeare.  Ainda que as candidatas sejam várias, a jornalista inclina-se mais para Emilia Bassano, uma das primeiras mulheres a publicar poesia em Inglaterra e já associada a Shakespeare como sendo a sua “Dark Lady”, mencionada nos seus sonetos.

John Hudson, historiador inglês, foi em busca da verdadeira história desta mulher e descobriu uma série de factos que ajudam a acreditar nesta teoria de que Shakespeare e Bassano podem ser, de facto, a mesma pessoa.

Na sua adolescência, Emilia tornou-se amante de Henry Carey, Lord Hunsdon, mestre de entretenimento na corte e patrono da companhia de teatro de Shakespeare. “Ela viveu em diferentes mundos sociais”, sustenta o historiador, acabando por englobar características absolutamente shakespearianas – desde referências mais grosseiras, típicas de uma classe inferior, ao conhecimento íntimo que parecia ter da corte, passando pela herança italiana e as alusões à música – a sua família era emigrante, oriunda de Veneza, constituída por músicos e fabricantes de instrumentos musicais. 

O artigo de Winkler, para a revista The Atlantic, é extenso e procura justificar, de forma sustentada, a associação de Emilia Bessano a William Shakespeare.

A jornalista já obteve uma resposta, do académico James Shapiro, que refuta a ideia de que o emblemático dramaturgo possa ter sido uma mulher

 

To be or not to be… That is, indeed, the question!

 

Fonte: The Atlantic

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