Caminhamos Juntos
Ser peregrino não é apenas o ato de caminhar, é um exercício sagrado de deixar o dia a dia e nos entregarmos à essência da nudez da alma. É um despojamento onde deixamos para trás os títulos, o olhar dos outros e partimos somente com o que é essencial para caminharmos. Há um chamamento, uma vontade, quando aceitamos que o destino e o percurso são o nosso Caminho.
É com este espírito de entrega e com o peito a transbordar de gratidão que nasce Caminhamos Juntos. Este livro não é um inventário de distâncias, um mapa de albergues ou a explicação técnica de uma rota, é o registo da minha geografia interior e o eco de todos os corações que, de perto ou de longe, bateram com os meus passos, com os nossos passos.
Ao longo de cinco peregrinações, vivi cinco experiências distintas, cada uma com o seu milagre, o seu suor, a sua dor, a sua gratidão e a sua revelação. Mas para entenderem a força do meu passo, é preciso recuar ao momento em que a minha vida estava suspensa entre dois mundos.
A minha história como peregrino mergulha as mãos na terra onde tudo começou, mas o seu prólogo foi escrito longe daqui. Vivi emigrado em França durante 26 anos. Foram décadas de trabalho, de construção e de uma vida moldada pela distância e pela saudade. Quando decidi que era tempo de voltar definitivamente para Portugal com a minha família, o medo e a esperança travaram uma batalha no meu peito. Foi nesse momento de transição, antes de cruzarmos a fronteira final do regresso, que senti o apelo de Santiago.
Naquele primeiro Caminho, eu não levava apenas uma mochila, levava o peso invisível e sagrado de uma mulher e de dois filhos às costas. As perguntas martelavam-me a mente a cada quilómetro: Iria tudo correr bem com a nossa vinda para Portugal? Como seria o recomeço após quase três décadas fora? Teria eu fé suficiente para guiar a minha família nesta nova etapa? Os meus filhos iriam adaptar-se bem? Iria aguentar as saudades dos meus pais e da minha irmã que ficavam em França? Teria forças permanentes para não vacilar perante as dificuldades que o futuro nos reservava?
Foi com este turbilhão de dúvidas que realizei o meu primeiro grande ato de fé, partindo diretamente da casa onde nasci, do Covão do Lobo. Numa madrugada, saí bastante cedo, fica a memória de um "adeus, boa viagem", como os meus familiares me disseram. Estavam as minhas tias Fernanda e Eugénia e o meu tio Carlos. Fica a recordação daquela fotografia, pois hoje já não a podemos repetir: o meu tio já não se encontra presente fisicamente, depois de quatro anos a lutar contra o cancro. Depois de tantas batalhas vencidas, as forças físicas acabaram por ceder. Lá no céu, ele sabe quantos Caminhos fiz por ele e com ele.
Lembro-me também do barulho do portão ao fechar. Quando saí de casa, olhei para trás, para onde guardava as minhas memórias de infância, era o abrir de um horizonte infinito. Sair daquela casa materna, o útero de tudo o que sou, em direção ao "Campo de Estrelas". Esta saída foi um regresso às origens necessário para conseguir decifrar o meu futuro. Cada passo dado naquelas estradas que conheciam o meu nome, e que me viram partir jovem para o estrangeiro, transmutou-se agora numa descoberta espiritual profunda. Ali, entre o esforço e a prece, o Caminho sussurrou-me as respostas. Percebi que as forças de que precisava não vinham dos meus músculos, mas da entrega. O Caminho provou-me que o verdadeiro Caminho começa exatamente onde o nosso coração está plantado e que, se tivesse coragem de caminhar até Santiago, teria coragem de reconstruir a nossa vida em Portugal. Este primeiro percurso foi o batismo de uma nova vida, a ponte de fé que uniu os meus 26 anos de França à terra que me viu nascer.
Mas o Caminho é também um mestre que se faz acompanhar. O Caminho ganhou outra dimensão, de uma pureza inesquecível, quando o partilhei pela primeira vez com o meu filho. No Caminho Central, com apenas dez anos, ele foi o meu guia na arte da simplicidade. Enquanto eu me preocupava com o peso da mochila, ele ensinava-me a ver a beleza do nascer do sol ou a magia de uma fonte de água fria, onde até foi picado por uma abelha. Foram momentos de uma riqueza humana bruta e doce, onde o cansaço era vencido pelo brilho no olhar de uma criança. Ali, entre estrada e silêncio, forjámos um laço de sangue e comunhão que só o Caminho tem o poder de selar para a eternidade.
Mais tarde, o destino colocou-me à prova num Caminho de desapego radical. Ao lado do meu amigo Jorge Laranjeira, percorri o Caminho da Costa num ato de entrega absoluta à Providência. Partimos sem nada: sem dinheiro, sem recursos, sem mantimentos. Levávamos apenas a fé e a vontade. Foi uma lição de humildade que me quebrou por dentro para me reconstruir mais forte. Sobrevivemos da generosidade de mãos desconhecidas que nos estenderam um pão, de portas que se abriram sem perguntas e de corações que nos viram como amigos. Ali aprendi a maior verdade de Santiago: quando não temos nada, temos tudo, porque o Caminho não nos dá o que queremos, mas provê exatamente o que precisamos.
O apelo do norte e das montanhas chamou-nos depois para o Caminho Primitivo. Novamente, o meu filho Sacha, agora com doze anos, esteve ao meu lado. Enfrentámos a dureza das subidas, o nevoeiro denso das Astúrias e o isolamento dos montes. Ver o Sacha crescer e transformar-se entre paisagens ancestrais foi um privilégio que nenhuma riqueza compraria. O Primitivo exigiu cada gota do nosso esforço, mas devolveu-nos uma resiliência indestrutível e uma cumplicidade que as palavras mal conseguem descrever.
E agora, chego a este último capítulo: um Caminho partilhado com seis peregrinos que se tornou uma lição de vida sem precedentes. Um grupo que se tornou uma única alma, uma partilha constante. Esta experiência reafirmou a minha crença inabalável na humanidade e na beleza do coletivo. Neste Caminho, fisicamente, também caminhou a minha esposa. Que gratidão imensa, meu Deus, poder partilhar o Caminho com a mulher que amo. Caminhar lado a lado com ela, depois de tudo o que já atravessámos no "Caminho da Vida", é a definição mais pura de amor. É saber que, independentemente da dureza do Caminho, as nossas mãos encontram-se sempre. O amor não é apenas olhar um para o outro, é olharmos juntos na mesma direção. Neste grupo de sete, reafirmei a minha crença inabalável na beleza do amor.
Fica a faltar a minha filha, a Luna. Sei que o dia faremos o Caminho juntos, está para breve. Enquanto esse dia não chega, caminhamos de outra forma, unidos por um amor que não conhece distâncias.
Foram muitos quilómetros, foram muitas noites que quando agradecia a Deus, olhava para o céu, onde está a nossa estrela que nos guia, a minha filha Eva, que me conduz não só no caminho como em toda a vida.
Dedico estas páginas a todos vocês que caminharam connosco, no pensamento, nas fotografias partilhadas, nas palavras de incentivo deixadas nas redes sociais. Vocês estiveram sempre presentes. A vossa força estava na minha mochila. A minha maior felicidade, a paz que me invade, é saber que o nosso Caminho serviu de incentivo, coragem, fé e esperança para outros. Saber que alguém, algures, decidiu calçar as botas ou sapatilhas e enfrentar os seus próprios demónios, medos e silêncios porque encontrou em nós um sopro de motivação, dá a este livro e à minha vida um propósito sagrado.
Conhecendo o bem transformador, quase regenerador, que o Caminho faz à alma, ver outros peregrinos a iniciar o Caminho, é ver o milagre multiplicar-se no mundo; é uma grande alegria para mim. Após cinco idas a Compostela, a chama não se apagou, pelo contrário, arde com mais força. A vontade de recomeçar já amanhã é uma presença constante, um chamamento que range nos ossos e canta no espírito. Enquanto o próximo horizonte não surge no mapa, deixo-vos estas memórias, escritas com a verdade de quem sabe que a vida é curta, mas o Caminho é eterno.
Para quem já foi, que estas palavras sejam o cheiro dos campos e o som do cajado a bater na pedra, um regresso a casa.
Para quem vai, que estas páginas sejam o empurrão que faltava, o vosso primeiro passo.
Caminhamos juntos. Ontem, hoje e em todos os amanhãs que o Caminho nos der.