Ele tinha dito «Eu sou você», mas nunca «Eu sou eu». Quem pensava ele que era? Eis o que deveria ter-lhe perguntado. «Vivi oprimido, na sombra, encarcerado no teu medo»: ela recordava-se perfeitamente daquelas palavras. Pensaria ele então que era uma parte de si própria que ela tinha mantido aprisionada? Pode ser-se uma prisão para si mesmo?
Na gare du Nord, em Paris, Aline Berger aguarda o comboio que a levará de volta a casa, em Bruxelas. Nas mãos, tem um exemplar de Orlando, de Virginia Woolf, e o seu espírito, incapaz de se concentrar na leitura, divaga. Como seria se pudesse habitar o corpo de um homem? E se o corpo desse homem fosse o daquele jovem a umas mesas de distância? Depois de trinta e cinco anos aprisionado, Orlanda, o seu alter ego, liberta-se e instala-se no que antes fora Lucien, alegremente provocando o caos na sua anterior existência e alterando de forma dramática aquelas duas vidas. Distinguido com o Prémio Médicis em 1996 e agora redescoberto, este é um engenhoso romance filosófico que explora o modo como um e outro sexo ocupam o mundo, num sonho andrógino que, depois de Eu Que não Conheci os Homens, confirmou a genialidade de Jacqueline Harpman.