Bertrand.pt - Cemitério de Pianos
Opinião dos leitores
(2)

Cemitério de Pianos

de José Luís Peixoto 

Editor: Quetzal Editores
Edição ou reimpressão: outubro de 2009
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Cemitério de Pianos é o quarto romance de José Luís Peixoto. Os narradores, pai e filho, desvendam a história da família, que vive em Lisboa, e falam da morte: a morte como destino irremediável, ciclo ininterrupto, renovação e elo entre gerações.

Críticas de imprensa

"Ternura, morte e renovação - eis as notas que pautam o mais recente livro de José Luís Peixoto, um romance cheio de música e ritmos peculiares sentidos na pontuação e construção das frases; palavras que respiram, correm e desfalecem ao compasso da vivência das personagens, numa melodia que ora comove e revolta, ora nos faz sorrir e angustia (...) Não é um romance fatalista. É o ciclo redentor da vida escrito sem pudores. Muito bem escrito."
Ana Morgado

«A escrita de José Luís Peixoto é a um tempo fresca, ágil e envolvente e, ao mesmo tempo, comporta toda uma herança literária universal. Estamos diante de um escritor maduro. Um admirável narrador português.»
Luís Sepúlveda

«Creio estarmos perante um grande ficcionista e, também, um grande prosador da língua portuguesa, capaz de extraordinárias notações do real, de ritmos inovadores e até de uma relação estrutural com as formas musicais que não têm precedentes entre nós.»
Vasco Graça Moura

«O fantástico é contado com a naturalidade do quotidiano. A crónica e a fábula sobrepõem-se, como as histórias que contam ou presenciam ou calam as personagens de William Faulkner ou de Juan Rulfo.»
Antonio Muñoz Molina

«Um valor seguro da literatura portuguesa, com grande sentido de linguagem poética e grande domínio da língua portuguesa.»
Manuel Vázquez Montálban

Excertos
"na terra do quintal. Empilhava tábuas que eram restos de madeira que o meu pai trazia da oficina e fazia casinhas. A cadela passava devagar, com os olhos castanhos perdidos no chão. Debaixo de uma laranjeira, meio enterrado, estava um pedaço comprido de arame enferrujado. Acredito que consigo lembrar-me do momento em que o meu corpo de quatro anos se levantou para, com as duas mãos, puxar o arame da terra. Vejo esse instante com a mesma falta de nitidez com que, agora, olho para o lado e distingo copas de árvores, misturas de folhas, a sucederem-se à minha passagem. Como uma imagem de cores líquidas a dissolverem-se umas sobre as outras. Naquele dia, voltei a sentar-me junto das tábuas empilhadas, que eram as casas que tinha construído. Segurava o arame e comecei a encontrar-lhe formas desajeitadas. Na minhas mãos, havia riscos de terra e ferrugem. Ouvi os movimentos da porta da rua a abrir-se. Era o meu irmão a sorrir. Tinha as roupas sujas de serradura porque era aprendiz do nosso pai e estava a voltar do trabalho. Disse-me qualquer cumprimento antes de reparar que eu tinha o arame na mão. Os canteiros que a minha mãe tratava com um sacho floriam atrás dele. O Simão tinha dez anos e era um rapaz. Às vezes, punha as mãos nos bolsos e ria-se. Quando me lembro dele nos dias que passaram antes daquele dia, a primeira imagem que me surge é ele de mãos nos bolsos, a rir-se. Naquela tarde, trazia a camisa fora das calças. Quando me viu com o arame na mão, deu três passos rápidos na minha direcção. A partir daqui, foi tudo rápido, mas agora, ao recordar-me, é tudo muito lento. As mãos do Simão eram maiores do que as minhas e tentavam tirar-me o arame. Não sei quais foram as palavras que escolheu para me dizer que não devia brincar com arames porque, antes de poder entendê-las, talvez por reflexo, talvez porque naquele momento me pareceu que devia ser assim, talvez porque achava que eu também sabia aquilo que devia fazer, talvez por nenhum motivo, por nenhum motivo, não larguei logo o arame. Continuei a segurá-lo com as duas mãos. Sentia a força do meu irmão no arame ferrugento que apertava com toda a força na palma das minhas mãos. E foi muito rápido, sei que foi um momento, mas agora parece-me que foi uma hora parada. Todos os movimentos divididos. Tudo muito devagar. A ponta do arame avançou na direcção da cara do meu irmão. Como se existisse uma linha recta a mostrar-lhe o caminho. A ponta enferrujada do arame avançou. O seu rosto. Num só movimento, a ponta do arame tocou-lhe na parte branca e húmida do olho direito, premiu-a ligeiramente e afundou-se definitiva num rasgão. O meu irmão largou o arame, afastou a cara e levou as duas mãos ao olho direito. Esse foi um momento de silêncio absoluto. Eu tinha quatro anos e sabia que tinha acontecido algo terrível. O meu irmão estava agarrado à cara e fazia sons de dor como eu nunca tinha ouvido. Não eram gritos. Eram sons de uma dor que o destruía devagar. Eu tinha quatro anos e segurava ainda o arame. Esse foi o momento em que a nossa mãe nos viu através do vidro da janela da cozinha. Esse momento terminou quando a nossa mãe saiu a correr pela porta, a perguntar: o que é que aconteceu?, o que é que aconteceu? Eu não conseguia dizer nada. O meu irmão segurava a cara e, atrás das suas mãos, nasciam fios de sangue que lhe escorriam pelo braço e pela face e pelo pescoço. Eram fios de sangue muito vivo que lhe desciam pelos pulsos, lhe atravessavam a pele lisa e clara do interior dos braços e lhe pingavam pelo bico do cotovelo. A nossa mãe, que não imaginava, aproximou-se dele, e disse-lhe: tem calma, tem calma. Sem imaginar, a tentar uma voz serena de mãe, disse-lhe: deixa lá ver o que é que aconteceu. O Simão, ainda a querer acreditar que podia haver uma possibilidade de não ter acontecido o que aconteceu, afastou as mãos lentamente. No seu rosto ensanguentado, eu e a minha mãe vimos a maneira como o lado direito da sua cara era um buraco de sangue onde estava a pele branca e vazia do olho, com o desenho circular e espalmado da íris, e que, entre o sangue, lhe escorria sobre o rosto a matéria espessa e viscosa, como a clara de um ovo, que estava antes no interior do olho. No lado esquerdo da cara do Simão, o outro olho, magoado e inocente, esperava a reacção da minha mãe. Eu tinha quatro anos e segurava ainda o arame. Larguei-o quando a minha mãe não conseguiu parar o grito amargurado que a rasgou. O meu irmão voltou a tapar o rosto. E as minhas irmãs entraram no quintal a correr pela porta da cozinha. E entraram vizinhos a correr pela porta da rua. A minha mãe gritava com toda a força da sua garganta. Alguém foi chamar o meu pai à oficina. Alguém me agarrou pela cintura, me levantou da terra do quintal e me levou para a cozinha. Entre os corpos das pessoas que amparavam a minha mãe, entre as minhas irmãs agarradas uma à outra a chorarem, entre as pessoas que rodeavam o meu irmão com toalhas limpas e, logo a seguir, encharcadas de sangue, eu tinha quatro anos e era devorado por um medo como lâminas. Estava em silêncio, parado, com os olhos abertos e muito grandes, a ser devorado por um medo como lâminas. Num momento, o meu pai entrou na cozinha. Ninguém poderia pará-lo. Apenas se ouvia a sua respiração. Passou entre as pessoas, segurou o meu irmão por um braço e, com os homens que estavam na cozinha a seguirem-nos, foram para o hospital. Quando saíram, era de noite. Assim que a porta bateu a fechar-se, ficou apenas a aflição da minha mãe e das minhas irmãs, seguida pelas vozes arrastadas das vizinhas que tentavam consolá-las. Foi uma dessas vizinhas que, entre as sombras das outras, riscou um fósforo e acendeu o candeeiro de petróleo sobre a mesa. A partir daí, enquanto o choro da minha mãe e das minhas irmãs ia enfraquecendo, as vizinhas iam-se despedindo e saindo. Ficámos sozinhos na cozinha: as pedras do chão da cozinha, a mesa e os bancos de madeira. Através da luz e das sombras do candeeiro de petróleo, a minha mãe e as minhas irmãs tinham os olhos abertos de encontro a uma imagem que só elas podiam ver. Passou um tempo frio de guinchos e de lâminas. Ao fim do serão, o meu pai e o Simão chegaram em silêncio. O meu irmão tinha o lado direito da cabeça envolto em ligaduras que lhe cobriam o olho. Ninguém disse nada. Fomos dormir. Essa noite foi como as noites de muitos meses que se seguiram. Havia um peso fundo dentro de nós a puxar-nos para o nosso interior mais negro. Passaram meses. O meu irmão"

  • Apaixonante!!!
    Carla Tomé - Livreira Bertrand Foz Plaza | 02-06-2017

    Uma história feita de amor mas também de violência e de momentos de solidão e de saudade."Correr é estar absolutamente sozinho. Sei desde o ínicio:na solidão, é-me impossível fugir de mim próprio (...) enquanto corro, fico parado dentro de mim e espero. Fico finalmente à minha própria mercê"

  • Nostálgico e comovente
    Sónia Pereira | Livreira Bertrand Forum Coimbra | 20-04-2017

    Foi com este livro que iniciei a leitura de José Luís Peixoto. Fiquei rendida à sua escrita profunda, intensa e comovente. Este romance é baseado na vida de Francisco Lázaro, atleta português, que faleceu após cumprir trinta quilómetros da maratona nos Jogos Olímpicos de Estocolmo, em 1912. Esta história, contada a duas vozes por pai e filho, que partilham não só o nome, Francisco, como a profissão de carpinteiro e a paixão pela música, tem como tema principal as relações familiares, abordando temas tão actuais como a violência doméstica e a traição. Sendo esta uma família de carpinteiros, há um lugar especial e misterioso, que passa de geração em geração, o Cemitério de Pianos. Este lugar, que tem tanto de assustador como de belo, testemunha os mais marcantes momentos desta família, simbolizando a vida e a morte, sempre tão presente ao longo de todo o romance. Um livro carregado de nostalgia, escrito com extrema delicadeza. José Luís Peixoto é um exímio contador de histórias! Excerto do livro: "Olhava para os pianos mortos, lembrava-me de como havia peças que ressuscitavam dentro de outros pianos e acreditava que a vida toda poderia ser reconstruída dessa maneira."

Cemitério de Pianos
ISBN: 9789725648230 Ano de edição ou reimpressão: Editor: Quetzal Editores Idioma: Português Dimensões: 148 x 228 x 20 mm Encadernação: Capa mole Páginas: 288 Tipo de Produto: Livro Classificação Temática: Livros  >  Livros em Português  >  Literatura  >  Romance

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