Seja por vontade de sublimação, seja por esquecimento de si na engrenagem dos seus dispositivos de reciclagem, dir-se-ia que as "artes" tendem a iludir ou a recalcar a dimensão de sujidade que, com os seus rudimentares poderes de simbolização, elas se forjaram no início.
E no entanto é essa insistência de um real errático, tantas vezes selvagem e (in)significável, que as tem trabalhado quer no seu campo específico - pense-se na problemática da representação do Horror na Tragédia (de Aristóteles a Hölderlin) - quer nas relações que elas estabelecem entre si - caso da Literatura e da Pintura (Du Bos, Lessing, Balzac) mas também da Literatura e da Música (Platão, os românticos alemães, Nietzsche).
Face a este impasse da representação do real, vários autores (Artaud, Bataille, DeLillo) se têm referido à necessidade de um novo sacrifício. Talvez seja altura de reflectir sobre o que faz Madonna, num dos seus últimos clips («What it feels like for a girl»), a exemplo do dispositivo-Crash de Ballard/Cronenberg, espatifar de encontro a um poste o modelo já cansado de uma desacelerada concepção de cultura.