As Colectividades de Cultura e Recreio na Resistência ao Fascismo Português
Este volume de Cadernos Nova Síntese é dedicado às Colectividades Populares de Cultura e Recreio durante o período do Fascismo Português.
É uma publicação comemorativa dos 50 anos do 25 de Abril de 1974.
Muitas das Colectividades populares de Cultura e Recreio foram fundadas ainda no tempo da Monarquia, na maior parte dos casos por militantes republicanos, os quais pretendiam democratizar a Cultura e a Educação. Nelas imperou e desenvolveu-se o ideário republicano. A grande maioria aderiu entusiasticamente ao 5 de Outubro de 1910.
Com o Golpe Militar do 28 de Maio de 1926, e com a instalação da Ditadura, grande parte dessa actividade e importância reduziu-se, pela acção da Censura e das restrições impostas, pela redução dos apoios, pelas perseguições. Tudo piorou com a Constituição de 1933, a implementação do Estado Novo e o reforço da polícia política.
Muitas Colectividades conseguiram, nas novas condições, continuar a desenvolver uma actividade cultural para além das Bandas e da parte recreativa. Muitas recusaram que as suas Bandas participassem em eventos do Regime, embora pagando a seguir a factura, com a demissão da Direcção ou cortes de apoios.
Conseguiram implementar Bibliotecas de razoável dimensão, substituindo-se às Bibliotecas Públicas que não existiam, contendo livros e autores de que o Regime não gostava ou perseguia, por vezes com compartimentos disfarçados nas sedes onde se escondiam os livros proibidos, como se conta em alguns textos do presente volume.
Bibliotecas realizavam sessões públicas com os autores, geralmente de Oposição. Especialmente depois dos anos 40 realizaram-se talvez milhares delas, normalmente tendo a presença de agentes da polícia política ou de informadores. Muitas foram proibidas. Em muitos casos, Presidentes de Câmara exigiam ter conhecimento prévio das sessões a realizar, com indicação dos participantes e do tema.
A repressão que caíu sobre as Colectividades, além das proibições de actividades, manifestou-se por demissões de Direcções, seguidas de nomeação de Comissões Administrativas, convocações para comparência para interrogatórios nas autoridades policiais e na PVDE/PIDE/DGS, prisão de dirigentes com o pretexto de "actividades subversivas".
Os Grupos de Teatro de Amadores desempenharam também um papel muito importante, pois conseguiam levar à cena peças que apresentavam problemas aos espectadores e que colocavam interrogações. Peças aparentemente inócuas podiam ser encenadas de forma a vincar certos aspectos de carácter político ou social que interessava valorizar.
[ANTÓNIO MOTA REDOL]