Confia nas grades. Aproxima-te. Vou-te contar.
Vá lá, aproxima-te, leitor. E tu, leitora. Não tenhas medo. Estou preso
vai para três anos. Não vês as grades? Não te consigo tocar. Receias
sequer olhar-me? Então escuta só, vou contar-te do escritor conceituado.
Soube agora que sou seu filho. Não
se lembra sequer da minha mãe, não sabia
de mim. Recompôs-se, aceita-me, vem-me
buscar. Vai-me conseguir a liberdade. É famoso,
influente, já viste a minha sorte? Se
me ouvires, vais saber que a mulher dele
nem sonha que existo, vais ver o neto autista
que ele finge não ver. Mais o padre
que se dedicou a mim na prisão, que acredita
que ainda vou a tempo, que jurou que não
me deixa apodrecer aqui. O padre que me
perdoa o crime horrível. Sim, o crime. Mas
não te assustes. Não te afastes agora. Confia
nas grades. Aproxima-te. Vou-te contar.